A plataforma Polymarket registrou US$ 249 milhões (cerca de R$ 1,3 bilhão) em apostas sobre a corrida presidencial brasileira, volume que expõe o apetite crescente por mercados preditivos — e a tensão regulatória que cerca o setor.
O dado chama atenção não apenas pelo montante, mas pela distribuição: o cenário de vitória de Lula atraiu US$ 48,5 milhões, enquanto a candidatura de Flávio Bolsonaro concentrou US$ 62 milhões. Nomes que sequer oficializaram candidatura, como Tarcísio de Freitas (US$ 15 milhões) e Michelle Bolsonaro (US$ 10 milhões, empatada com Eduardo Bolsonaro e Ratinho Júnior), também movimentaram cifras relevantes.
Brasil ainda é fração do que rola nos EUA
Para calibrar a escala: o mercado que aposta no candidato democrata à Casa Branca em 2028 já acumula US$ 1,3 bilhão. A definição do presidente eleito nos Estados Unidos soma US$ 721 milhões. A eleição para prefeito de Nova York, sozinha, girou US$ 430 milhões.
No ranking global da plataforma, as apostas políticas brasileiras só ficam atrás da Copa do Mundo — que movimentou US$ 4,4 bilhões no total, com US$ 82 milhões na seleção brasileira.
O “caso Flávio” e as apostas sobre asilo político
Mercados recentes sobre o futuro do senador eleito pelo PL revelam expectativas concretas:
- 43% dos apostadores acreditam que Flávio Bolsonaro será recebido por Donald Trump ainda em 2024.
- 60% apostam que o governo americano concederá asilo político ao parlamentar, que está nos EUA após determinação do STF para entrega de passaporte.
Esses números não são pesquisas de opinião. Refletem o preço que participantes estão dispostos a pagar para manter uma posição — e, portanto, a probabilidade implícita que o mercado atribui a cada desfecho.
Como a plataforma ganha (e por que não é cassino)
A Polymarket cobra taxas que variam conforme o tipo de mercado e a probabilidade do evento. Em contratos políticos sujeitos a comissão, o teto é 1% do valor negociado, atingido quando as chances estão em 50% — ou seja, no ponto de máxima incerteza.
Diferente de casas de apostas tradicionais, a plataforma não fica com o dinheiro dos perdedores. Todo o capital investido é redistribuído entre quem acertou o resultado. O modelo atrai traders que buscam proteção (hedge) ou especulação pura baseada em informação, não em sorte.
Valuation de US$ 15 bi e a barreira regulatória brasileira
Segundo a Sacra, ferramenta de inteligência financeira, a Polymarket fatura cerca de US$ 1 bilhão ao ano e tem valuation estimado em US$ 15 bilhões. A empresa se define como “plataforma global que disponibiliza dados gerados por mercados preditivos” e reforça que suas probabilidades “não constituem pesquisas de opinião nem projeções oficiais”.
Em abril, o governo federal determinou o bloqueio de 27 plataformas, incluindo Polymarket e Kalshi. A medida veio acompanhada de resolução do Conselho Monetário Nacional que veda a oferta e negociação no Brasil de derivativos atrelados a resultados políticos, eleitorais, esportivos e de entretenimento.
A Polymarket afirmou, em nota, manter diálogo com reguladores de diferentes países e estar aberta a contribuir tecnicamente nas discussões com autoridades brasileiras, citando “a natureza informacional dessa categoria, bem como a transparência, a integridade de mercado e a proteção dos usuários”.
O que observar daqui para frente
Três vetores vão ditar o próximo capítulo: a disposição do Congresso em legislar sobre mercados preditivos (hoje enquadrados como derivativos), a pressão de investidores internacionais por acesso ao mercado brasileiro e a eventual abertura de sandboxes regulatórios. Quem acompanha alocação de capital em ativos alternativos deve monitorar se o Brasil seguirá o caminho da proibição total ou criará uma classe de ativos regulada — como já ocorre em jurisdições que tratam esses mercados como infraestrutura de descoberta de preço, não como jogo de azar.
