A Klabin (KLBN11) entregou lucro líquido de R$ 393 milhões no terceiro trimestre de 2026, superando o consenso de mercado de R$ 329,5 milhões. Ainda assim, as units fecharam a quarta-feira (28) em queda de 6,37%, cotadas a R$ 17,48. O mercado ignorou o resultado final e puniu o que estava por trás dele.
O custo que assustou os analistas
A XP Investimentos classificou os números como “ligeiramente abaixo das expectativas”. O pivô da decepção foi o custo caixa consolidado: saltou 8% na comparação trimestral, atingindo R$ 3,5 mil por tonelada.
No acumulado de nove meses, o indicador já ultrapassa o teto da guidância da própria companhia. Para os analistas Lucas Laghi, Guilherme Nippes e Fernanda Urbano, a atenção agora se volta totalmente para a trajetória desse custo e seu impacto direto na geração de fluxo de caixa livre (FCF).
Três frentes de pressão simultânea
O JPMorgan detalhou a origem da deterioração na divisão de Papel e Embalagens, que ficou abaixo das estimativas. Três fatores principais explicam a compressão de margem:
- El Niño: maiores despesas com fibras e logística para mitigação de efeitos climáticos;
- Parada de manutenção: aumento de custos fixos na unidade de Otacílio Costa;
- Inflação de insumos: alta de químicos e combustíveis, turbinada por conflitos geopolíticos.
Esses ventos contrários anularam o benefício de maiores volumes e preços no segmento.
O contraponto: a força da celulose fluff
Nem tudo foi negativo. A divisão de Celulose mostrou resiliência e foi o destaque positivo do trimestre. O EBITDA da unidade veio 8,2% acima do projetado pelo JPMorgan, impulsionado por volumes e preços realizados superiores.
O Goldman Sachs reforçou que a realização de preços foi o grande trunfo. O preço da celulose fluff — usada em produtos absorventes — ficou US$ 30/t acima da expectativa do banco, abrindo um diferencial de US$ 380/t sobre a celulose de fibra curta (hardwood). No papel, o kraftliner subiu 7% no trimestre e o papel-cartão revestido também deu sinais de recuperação.
Fluxo de caixa no vermelho e dívida no radar
Apesar do lucro contábil, a geração de caixa operacional decepcionou. Pelos cálculos do JPMorgan, o FCF foi negativo em R$ 1 milhão, pressionado por investimentos (capex), despesas financeiras e consumo de capital de giro.
O Itaú BBA calculou EBITDA ajustado de R$ 1,86 bilhão, estável frente à estimativa, mas 2% menor que o trimestre anterior (excluindo venda de terrenos no 2T26). Com isso, o foco dos próximos relatórios será a velocidade de desalavancagem.
Consenso neutro: para onde olham os preços-alvo
As três casas mantiveram recomendação neutra, mas com alvos distintos que sinalizam o intervalo de negociação esperado:
- Itaú BBA: R$ 21,00
- JPMorgan: R$ 19,00
- Goldman Sachs: R$ 18,50
O spread entre as casas reflete a incerteza sobre a normalização dos custos no curto prazo.
O que observar daqui para frente
Dois vetores vão ditar o ritmo da ação nos próximos meses. O primeiro é a execução do plano de mitigação do El Niño: se os custos logísticos e de fibra não recuarem no 4T26, a guidância anual de custo caixa será oficialmente rompida. O segundo é o câmbio. Uma eventual desvalorização do real funciona como hedge natural para a receita dolarizada, podendo aliviar a pressão sobre o FCF em reais. Enquanto isso, a demanda doméstica por embalagens segue como variável de risco não precificada.
