Justiça

Lista de boicote a eleitores de Lula explode em cidade mineira; comerciantes revidam

Lista de boicote no WhatsApp expõe comércios de eleitores de Lula em Poços de Caldas
Comerciantes de Poços de Caldas acordam com listas de boicote político no WhatsApp

Comerciantes de Poços de Caldas (MG) acordaram com os nomes expostos em listas de WhatsApp que pedem boicote a quem votou em Lula. A mensagem é direta: “Se você é patriota, não compre nestes comércios petistas”. O episódio reacende o debate sobre assédio eleitoral no varejo e já está nas mãos da polícia.

O município de 173 mil habitantes deu 55,8% dos votos a Bolsonaro no segundo turno, contra 44,2% de Lula — cenário inverso ao de Minas Gerais, onde o petista venceu por margem apertada. A polarização local virou arma comercial.

O que diz a mensagem que circula nos grupos

A lista traz dezenas de estabelecimentos de diferentes segmentos. O texto orienta: “Amplie a lista se souber”. Juristas alertam: a prática pode configurar crime de perseguição (stalking), com pena de seis meses a dois anos de reclusão mais multa, quando há ameaça à integridade psicológica ou invasão da privacidade.

  • Divulgação em massa via WhatsApp
  • Nomes de donos, não de empresas
  • Apelo à ampliação colaborativa da “lista negra”

Reação imediata: “Vou achar cada um de vocês”

Gustavo Pupila, comerciante incluído na relação, publicou vídeo nas redes prometendo identificar os autores. “Isso é crime. Esses bandidos vão pagar. Não aceitaram perder e estão mexendo com a minha vida. Eu vou mexer com a de vocês agora.”

Outros dois lojistas ouvidos pela reportagem relatam déjà vu: o mesmo ocorreu em 2022, quando Bolsonaro perdeu. Uma comerciante afirma ter sido hostilizada na época, mas diz que o movimento “dura pouco” e acaba unindo a clientela de “bom senso”.

Prejuízo real e expulsão de academia

Um empresário com décadas na cidade confirma: em 2022 perdeu movimento temporariamente. A agressividade, segundo ele, extrapolou o comércio — foi expulso da academia que frequentava ao questionar fake news compartilhadas pela proprietária no grupo do estabelecimento.

Mas o efeito mais relevante aparece na esfera institucional.

Vereadores do PT levam caso à Polícia Civil

Tiago Mafra e Diney Lenon, eleitos em 2024, formalizaram denúncia. Lenon comparou a prática à marcação de casas de judeus na Alemanha nazista: “Além de inadmissível moralmente, é crime. Nós não vamos aceitar.”

A Associação de Comerciantes foi procurada; o presidente Marcelo Bertolucci disse apenas estar ocupado.

Canal federal para denúncias de assédio eleitoral

O Ministério do Trabalho mantém página específica para relatos de perseguição política no ambiente de trabalho. Demitir ou pressionar funcionários por voto é crime. A denúncia pode ser feita anonimamente.

O que observar nas próximas semanas

Três frentes merecem atenção: a investigação policial sobre os autores das listas, eventuais ações cíveis por danos morais e materiais contra os divulgadores, e a adesão (ou não) de consumidores ao boicote proposto. Em 2022, o movimento arrefeceu em semanas — mas o precedente jurídico agora pode mudar a dinâmica.