Economia

O recorde de diesel que pode cobrar a conta em 2026

Refinaria da Petrobras operando em capacidade máxima com tanques de diesel em destaque
Petrobras atinge recorde de 769 mil barris/dia de diesel no 3º trimestre, reduzindo importações em 8,8%

A Petrobras produziu diesel como nunca no terceiro trimestre, atingindo média de 769 mil barris por dia. O volume recorde cortou importações em 8,8%, mas expôs uma defasagem de preços que analistas classificam como insustentável para o próximo ano.

A estatal operou suas refinarias a 99% da capacidade — cinco pontos percentuais acima de 2023 — para driblar a alta externa provocada pelo conflito no Irã. A estratégia funcionou no volume, mas deixou uma fatura aberta no caixa.

Refinarias no limite e pré-sal em alta

O fator de utilização beirando 100% não é um detalhe operacional; é a marca de um esforço deliberado para substituir compras externas. Paralelamente, a produção total de óleo e gás saltou para 3,51 milhões de barris/dia, novo recorde trimestral puxado por plataformas recentes no pré-sal.

Esse incremento de 170 mil barris/dia frente ao trimestre anterior deu à empresa a matéria-prima necessária para manter as unidades de refino aceleradas sem comprometer as exportações.

Diesel e QAV: a resposta à geopolítica

A guerra no Oriente Médio fechou rotas e elevou o custo de reposição no mercado internacional. A resposta da Petrobras foi dupla:

  • Diesel: vendas de 849 mil bpd (+4,9% a/a), impulsionadas pelo plantio de inverno e atividade industrial;
  • Querosene de aviação: produção de 122 mil bpd (+3,4%), sustentada pela sazonalidade de férias escolares.

Em ambos os casos, a priorização do refino nacional evitou exposição ao prêmio de risco do Estreito de Ormuz e aos ataques a refinarias russas.

A conta da defasagem: R$ 3,76 por litro abaixo da paridade

É aqui que o cenário muda de figura. Na abertura desta quarta-feira, o diesel nas refinarias da estatal custava R$ 3,76/litro a menos que o preço de importação calculado pela StoneX para a Abicom.

O valor supera a subvenção federal de R$ 3,52/litro paga ao produto importado. Na prática, pela métrica de mercado, a Petrobras perderia R$ 0,24 em cada litro de diesel trazido de fora — embora a companhia conteste a metodologia e afirme usar outros parâmetros de precificação.

Exportações recordistas mascaram a pressão interna

O alívio no fluxo de caixa veio de fora. As vendas externas de petróleo e derivados bateram 1,25 milhão de bpd (+21,1% a/a), puxadas pelo óleo combustível destinado à indústria e navegação marítima.

Do total exportado, 987 mil bpd foram de petróleo bruto, com 40% rumo à China. A receita em dólar forte compensa, por ora, a margem comprimida no mercado doméstico.

O que observar daqui para frente

Analistas do Itaú BBA alertam: a manutenção dessa defasagem coloca em risco o cumprimento da política de preços da companhia em 2026. Se o cenário geopolítico não arrefecer e o câmbio não ajudar, a equação fecha apenas com reajustes internos adicionais.

Para o empresário que planeja custos logísticos ou o investidor que monitora a geração de caixa, o gatilho a vigiar não é a produção — que segue robusta —, mas a disposição política e regulatória para recompor margens no ano que vem.