Um único usuário embolsou US$ 12 milhões na Polymarket desde abril de 2024. Enquanto isso, 68% de quem apostou mais de US$ 100 saiu no prejuízo. O abismo entre os dois mundos expõe como funcionam — e para quem funcionam — os mercados de previsão descentralizados.
Os números vêm de uma investigação do Financial Times que dissecou 170 milhões de apostas feitas por 1,2 milhão de carteiras. O retrato que emerge não é o de um cassino democrático, mas de um ecossistema onde volume, velocidade e acesso a liquidez sem limites separam os vencedores da multidão.
O perfil do campeão: volume cirúrgico, não sorte
A conta swisstony não acertou um palpite milagroso. Ela executou 184 mil apostas distribuídas em 113,1 mil mercados diferentes. Em junho, manteve pelo menos uma operação por hora durante 26 dias seguidos. O capital máximo simultâneo nunca passou de US$ 17 milhões, mas o volume total girado atingiu US$ 657 milhões.
A margem média por aposta? Apenas 2%. O segredo foi a reciclagem incessante de capital e a capacidade de identificar contratos precificados abaixo do valor real — segundo Chris Park, da MSR Decode, “essencialmente um apostador muito bom” que lucra aceitando preços oferecidos por outros operadores.
Dois jogos, um empate, milhões no bolso
Enquanto swisstony jogava o jogo do volume, outros líderes do ranking apostaram tudo em poucas partidas da Copa do Mundo de 2026. O terceiro colocado, fishalive, fez apenas duas apostas:
- US$ 440 mil na Espanha não vencendo Cabo Verde (probabilidade implícita de 9%)
- US$ 3,85 milhões na Espanha não vencendo por mais de 2,5 gols
O empate sem gols transformou a primeira posição em US$ 4,7 milhões de lucro. A segunda, uma proteção, também pagou. Apostas desse porte seriam impossíveis em casas tradicionais, que limitam depósitos e expõem o apostador a KYC rigoroso.
Por que a Polymarket atrai os tubarões
A plataforma permite operar conectando apenas uma carteira de criptomoedas — sem verificação de identidade, sem tetos de aposta, sem fronteiras jurídicas. Para apostadores em jurisdições restritivas ou com volumes que assustam corretoras convencionais, é a única porta aberta.
A empresa monitora carteiras sancionadas e faz triagem via Chainalysis, mas defende que a transparência on-chain substitui a verificação de identidade: “Todas as negociações são públicas na blockchain, e a análise costuma ser uma ferramenta mais poderosa”.
A conta que “faz o papel da casa”
A segunda maior vencedora de alto volume, RN1, opera de forma radicalmente diferente. Deixa ordens permanentes dos dois lados do mercado, capturando spreads e arbitragens. Park descreve o modelo como “fazer o papel da casa” em um sistema tradicional — RN1 fornece liquidez e lucra com a estrutura, não com o acerto do resultado.
Enquanto RN1 segue ativa, swisstony não aposta há dois meses. A bio do perfil agora exibe: “Até mais, e obrigado pelos peixes” — referência ao Guia do Mochileiro das Galáxias. Em fóruns no X, Reddit e Discord, especula-se que o operador tenha migrado para redes de contas menores ou mercados off-chain menos transparentes, para evitar que concorrentes reversem suas estratégias.
O dado que ninguém destaca: 68% no vermelho
Entre usuários que arriscaram mais de US$ 100, 68% perderam dinheiro. Desse grupo, 4% viram o saldo ir a zero. A assimetria é brutal: a plataforma processou US$ 5,1 bilhões em mercados de cripto no período, mas a participação nesses produtos caiu pela metade — de 115 mil contas ativas em maio (US$ 630 milhões) para 52 mil em setembro (US$ 389 milhões).
Gigantes como DraftKings e Flutter (dona da Betfair, Paddy Power, FanDuel) já atuam como formadores de mercado na Polymarket, aplicando suas engines de precificação contra usuários comuns. A vantagem informacional e tecnológica é delas.
O que observar daqui para frente
A saída de swisstony e a entrada de players institucionais sinalizam uma transição: o mercado de previsão deixa de ser um playground de early adopters e vira mais um canal de execução para market makers profissionais. Para o investidor ou empresário que acompanha o setor, três variáveis merecem radar:
- Regulação de KYC/AML em jurisdições-chave (EUA, UE, Brasil) — pode fechar a porta de entrada anônima
- Migração de liquidez para protocolos off-chain ou Layer 2 com menos transparência
- Erosão da vantagem do varejo à medida que bots institucionais dominam a formação de preço
O caso Polymarket ilustra um padrão recorrente em mercados financeiros nascentes: os primeiros a chegar colhem assimetrias; os últimos pagam a conta. A janela de vantagem para operadores independentes de alto volume pode estar se fechando mais rápido do que os números sugerem.
