O Ministério Público de São Paulo pediu a condenação do influenciador e empresário Renato Cariani por associação ao tráfico, desvio de insumos químicos e lavagem de dinheiro. A pena somada pode ultrapassar cinco décadas de reclusão em regime fechado. O que chama atenção não é apenas a gravidade das acusações, mas como uma operação logística sofisticada operou às claras por anos sob a chancela de uma empresa regular.
Cariani, dono da Anidrol Produtos para Laboratórios em Diadema, responde em liberdade. A denúncia do Gaeco detalha 59 ocasiões em que a empresa simulou vendas para clientes inexistentes — entre eles a farmacêutica AstraZeneca — para justificar o desaparecimento de toneladas de éter etílico e lidocaína, substâncias essenciais para refino de cocaína e crack.
Como a engrenagem funcionava na prática
Segundo os promotores, o esquema seguia um roteiro repetido: a Anidrol emitia notas fiscais frias, Cariani autorizava a retirada dos produtos fora do horário comercial e documentos falsos — placas de veículos, habilitações, comprovantes — eram fabricados para acobertar o desvio. O material seguia então para as mãos de traficantes.
Um detalhe expõe a intimidade do empresário com o funcionamento do narcotráfico: em mensagens recuperadas pela PF, ao ser questionado por um policial civil sobre uma substância controlada, Cariani respondeu que ela “era utilizada para aumentar o rendimento da cocaína”. O mesmo policial, Anadré Dziuba, era responsável justamente pela fiscalização do setor.
A ponte entre o laboratório e a rua
Fábio Spindola Mota, também denunciado, atuava como elo operacional. Ele teria criado um e-mail falso em nome de um suposto funcionário da AstraZeneca para validar pedidos inexistentes e coordenava a logística de entrega dos insumos aos compradores finais. Rodrigo Gomes Pereira completa o trio de réus pelos mesmos crimes.
- 59 crimes de tráfico de insumos químicos imputados a cada réu
- 59 crimes de lavagem de dinheiro na mesma denúncia
- Associação para o tráfico como delito base da organização
- Pena máxima projetada: 51 anos e 8 meses de reclusão
O cálculo por trás dos 51 anos
A cifra assusta, mas obedece a parâmetros técnicos. O advogado criminalista Anderson Almeida explica: a Súmula 659 do STJ permite aumento de dois terços quando há sete ou mais infrações em continuidade delitiva. Como a denúncia aponta 59 episódios de cada tipo penal, o acréscimo incide tanto no mínimo quanto no máximo da pena. O teto legal de cumprimento, contudo, permanece em 40 anos pelo artigo 75 do Código Penal.
A defesa de Cariani, representada por Aldo Romani Netto, classificou o pedido como “natural” e promete demonstrar a improcedência das teses nas alegações finais. A estratégia aposta na análise técnica das provas produzidas durante a instrução processual.
O que muda para o mercado de insumos químicos
O caso expõe falhas sistêmicas no controle de precursores. A Anidrol operava com registro regular, passava por fiscalizações e mantinha aparência de legalidade. A investigação só avançou porque a própria AstraZeneca detectou notas fiscais em seu nome referentes a operações que nunca realizou — e comunicou o Ministério Público em 2019.
O Gaeco pediu a absolvição de duas sócias da Anidrol, Roseli Dorth e Andréia Domingues Ferreira, por insuficiência de provas de participação direta no esquema. A distinção entre quem gerenciava a empresa no dia a dia e quem assinava papéis torna-se central na fase final do processo.
O que observar nos próximos meses
O processo entra na fase de alegações finais da defesa. Depois, o juiz profere sentença — que, qualquer que seja o resultado, será recorridada. Para empresários do setor químico, o caso desenha um precedente: a emissão de notas fiscais frias para justificar movimentação de insumos controlados deixa de ser irregularidade tributária e passa a ser tratada como crime de tráfico equiparado, com penas proporcionais ao volume de droga que aqueles insumos poderiam produzir.
A fiscalização de produtos químicos controlados tende a endurecer. Empresas que operam na borda do regulamento — vendas para clientes novos sem histórico, retiradas fora de expediente, documentação incompleta — entram no radar com prioridade. O custo de conformidade subiu; o risco de não conformidade, também.
