A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para um quarto mandato coloca o setor de renováveis em modo de cobrança: leis aprovadas, mas paradas na regulamentação, e um desperdício bilionário de energia limpa que assusta novos investimentos.
Presidente da Abeeólica, Elbia Gannoum resume o dilema: o discurso de transição energética voltou ao centro, mas a caneta para fazer as regras funcionarem ainda não foi usada. O que vem a seguir define se o Brasil vira potência verde ou continua desperdiçando vento e sol.
A fila da regulamentação e o custo da incerteza
O Congresso aprovou marcos importantes, entre eles a lei das eólicas offshore, sancionada em 2025. Só que, sem decretos e portarias, o capital fica paralisado. A Absolar, que reúne a energia solar, vai direto ao ponto: segurança jurídica não é detalhe, é condição de sobrevivência.
Bárbara Rubim, presidente do conselho da entidade, alerta que eventos climáticos extremos e regras instáveis formam uma combinação tóxica. A promessa de “melhor governo da história” será medida pela previsibilidade devolvida ao setor elétrico.
- Regulamentação pendente: leis aprovadas travadas na burocracia.
- Segurança jurídica: prioridade zero para atrair capital de longo prazo.
- Curtailment: corte forçado de geração limpa por limite do sistema.
O desperdício que assusta o balanço das empresas
O corte de energia excedente — o chamado curtailment — virou o vilão silencioso. Quando a rede não aguenta o pico de geração, turbinas e painéis são desligados. Resultado: receita zero, projeto inviável e investidor fugindo.
O governo agendou para dezembro o primeiro leilão exclusivo de sistemas de baterias. A tecnologia é vista como a peça que falta para guardar o excesso e estabilizar a rede. Mas há um entrave tributário: a Absolar calcula que impostos respondem por até 84% do custo das baterias.
Sem redução da carga tributária e sem ressarcimento justo para quem já teve geração cortada, o leilão corre risco de esvaziar.
Eólica offshore: a aposta de longo prazo e o atalho dos créditos de carbono
Parques no mar são a grande fronteira, mas o ticket de entrada é altíssimo. A consultoria WayCarbon, a pedido do GWEC, trouxe um número que chama atenção: até 10% da margem de lucro desses empreendimentos pode vir da venda de créditos de carbono.
Gustavo Ferreira, assessor do GWEC no Brasil, explica a lógica: projetos offshore exigem capital massivo e a receita extra dos certificados ajuda a fechar a conta. O estudo será apresentado no Brazil Windpower 2026, em São Paulo.
O problema da “adicionalidade” na matriz mais limpa do mundo
Não é automático. Para gerar crédito válido, precisa provar adicionalidade: a energia evitou emissão que não seria evitada de outro jeito. Como a matriz brasileira já é majoritariamente renovável, adicionar mais eólica ou solar pouco muda a conta de carbono global.
Ferreira avisa: desenvolvedores precisam ser conservadores nas premissas de receita com créditos. Duas rotas aparecem no radar:
- Metodologia da Verra, baseada em eletricidade renovável (eólica onshore e offshore elegíveis).
- Mercado internacional do Artigo 6 do Acordo de Paris, entre países signatários.
Dados centers: a demanda que pode resolver o excesso
No discurso da vitória, Lula citou o potencial de atrair data centers para consumir a energia limpa ociosa. A lógica faz sentido: demanda constante, alta tensão, faturamento em dólar. Se o Brasil virar hub de processamento de dados da América Latina, o curtailment vira receita.
Mas a conta fecha só se a regulação andar, as baterias entrarem e a tributação parar de punir o armazenamento. As primeiras turbinas offshore no mar brasileiro são previstas apenas para daqui a dez anos. O relógio corre.
O que observar daqui para frente
Três marcos ditam o ritmo nos próximos trimestres: a velocidade dos decretos regulatórios pós-eleição, o resultado do leilão de baterias em dezembro e a definição das regras de adicionalidade para créditos de carbono no mercado brasileiro. Quem acompanha o setor sabe: no papel, o Brasil já ganhou. Na prática, a fatura ainda está aberta.
