Economia

Trigo cai 13% em semanas: por que o pão não para de subir?

Grãos de trigo em queda e pães com preços em alta no Brasil
Trigo cai 13% em Chicago, mas pão sobe 2,7% no ano no Brasil.

O contrato de dezembro do trigo em Chicago despencou para US$ 6,10 o bushel, uma queda de 13% frente ao pico de US$ 7,04 registrado dia 10. No Brasil, porém, o cenário é outro: o pãozinho acumula alta de 2,7% no ano e subiu 1,15% apenas nas últimas quatro semanas, segundo a Fipe.

A desconexão entre a bolsa e a padaria expõe a fragilidade da cadeia nacional. Entender esse descompasso exige olhar para a safra global, o buraco produtivo interno e a logística travada no Mar Negro.

O alívio que vem da Argentina (e o peso do clima)

O Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) projeta safra mundial de 822 milhões de toneladas para 2026/27, volume 22 milhões abaixo do ciclo anterior. A União Europeia colhe 124 milhões de toneladas — 2 milhões a menos que a estimativa passada —, limitando as exportações do bloco a 29 milhões.

A Austrália recua 17%, para 29,9 milhões, e o Canadá cai 11%, para 36 milhões. Rússia e Ucrânia mantêm volumes, mas a guerra trava o escoamento. O contraponto vem da Argentina: a projeção saltou de 21 para 24 milhões de toneladas, aliviando a oferta global e derrubando as cotações em Chicago.

Brasil: produção mínima, importação máxima

Enquanto o mundo ajusta estoques, o Brasil vive um cenário extremo. A Conab estima a colheita nacional em 5,7 milhões de toneladas, uma das mais baixas da história. O consumo interno, porém, gira em torno de 12 milhões.

O resultado é uma conta simples e cruel: será necessário importar pelo menos 7,1 milhões de toneladas. Para efeito de comparação, o país embarcou apenas 970 mil toneladas para fora este ano, contra 2,3 milhões em todo 2025.

  • Produção nacional: 5,7 mi ton (Conab)
  • Consumo interno: ~12 mi ton
  • Necessidade de importação: 7,1+ mi ton
  • Preço Cepea (PR): R$ 1.564/ton (estável)

Por que a queda lá fora não chega à mesa

O produtor paranaense recebe praticamente o mesmo valor de semanas atrás. A moagem argumenta que o trigo importado — base da farinha nacional — foi comprado com dólar alto e frete caro meses atrás. Existe, ainda, o custo logístico de internalizar o grão nos portos do Sul e Sudeste.

Essa defasagem temporal explica a alta do pão francês em São Paulo: 1,15% no mês e 2,7% no acumulado de 2024. O repasse da commodity para o varejo não é automático nem simétrico.

O contraponto da soja e do milho

Enquanto o trigo aperta, a soja bate recordes. A Anec projeta 6,2 milhões de toneladas embarcadas apenas este mês, empurrando o acumulado de dez meses para 108 milhões — volume que supera o ano inteiro de 2025. Já o milho decepciona: 26 milhões exportados até outubro, bem longe dos 42 milhões do ciclo passado.

Mas o efeito mais relevante para o bolso do consumidor aparece no câmbio e na safra argentina. Se a colheita dos hermanos confirmar as 24 milhões de toneladas e o dólar não disparar, a pressão de custo sobre a farinha deve ceder no primeiro trimestre. Até lá, a regra é: estoque caro comprado ontem define o preço da padaria de hoje.

O que observar daqui para frente

Três variáveis ditam o próximo capítulo: a confirmação da produtividade argentina nas próximas semanas, o ritmo de embarques dos portos do Mar Negro e a taxa de câmbio. Qualquer ruído nesses pilares inverte a tendência de queda em Chicago e estica ainda mais a conta do pãozinho no Brasil.