O preço do trigo derreteu 13% nas bolsas internacionais em menos de três semanas, caindo de US$ 7,04 para US$ 6,10 o bushel em Chicago. No Brasil, porém, a farinha segue cara e o pãozinho acumula alta de 2,7% no ano. A discrepância abre uma janela de risco — e de oportunidade — para quem acompanha a cadeia doagronegócio e a inflação de alimentos.
Por que a cotação desabou tão rápido
A reversão brusca não veio de uma quebra de safra, mas do excesso de oferta inesperado. A Argentina revisou sua colheita para cima: devem sair 24 milhões de toneladas, três milhões acima da projeção anterior. Embora não bata o recorde do ano passado, o volume alivia a pressão global.
Ao mesmo tempo, os estoques de transição nos EUA e no Mar Negro seguem confortáveis. O mercado, que precificava risco climático extremo, corrigiu a rota assim que a safra sul-americana confirmou normalidade.
O Brasil na contramão: produção mínima, importação máxima
Enquanto o mundo nada em trigo, o Brasil vive um cenário oposto. A Conab projeta safra de apenas 5,7 milhões de toneladas — uma das menores da série histórica — frente a um consumo de 12 milhões.
O déficit obriga o país a importar pelo menos 7,1 milhões de toneladas. As compras externas, portanto, ditam o preço interno, criando um descolamento perigoso em relação a Chicago.
- Consumo nacional: 12 milhões t/ano
- Produção estimada 2026/27: 5,7 milhões t
- Necessidade de importação: 7,1 milhões t
- Preço no Paraná (Cepea): R$ 1.564/t (estável)
O repasse que não acontece (ainda)
A queda em dólar ainda não chegou à gôndola. Nas últimas quatro semanas, o pão francês subiu 1,15% na capital paulista, segundo a Fipe. Moinhos e indústrias trabalham com contratos travados em patamares mais altos e precisam recompor margens apertadas pelo câmbio e pela logística.
Essa defasagem costuma durar 30 a 60 dias. Se Chicago se firmar abaixo de US$ 6,00, o alívio ao consumidor virá no segundo semestre — desde que o real não se desvalorize mais.
Mapa global: onde estão os gargalos
A produção mundial deve recuar para 822 milhões de toneladas (USDA), 22 milhões a menos que no ciclo anterior. Os principais vetores:
- União Europeia: 124 mi t (-2 mi t vs. estimativa prévia); exportações limitadas a 29 mi t.
- Austrália: 29,9 mi t (-17% ano a ano).
- Canadá: 36 mi t (-11%), ainda acima da média quinquenal.
- Rússia e Ucrânia: volumes estáveis, mas logística travada pelo conflito.
O quadro sugere mercado apertado no segundo semestre de 2026, o que pode reverter a tendência de baixa atual.
Exportações brasileiras: trigo some, soja brilha, milho cai
A Anec mostra o contraste entre culturas. O Brasil exportou apenas 970 mil toneladas de trigo no ano (vs. 2,3 mi em 2025 todo). A soja, por outro lado, caminha para recorde: 108 milhões nos dez primeiros meses. Já o milho deve fechar em 26 milhões, bem abaixo dos 42 milhões do ano passado.
O dado reforça a fragilidade do balanço tritícola nacional e a dependência estrutural do grão importado — majoritariamente da Argentina e do Paraguai.
O que observar daqui para frente
Três variáveis definem o próximo trimestre: o ritmo de embarques argentinos nos portos do Sul, a taxa de câmbio (cada R$ 0,10 altera a paridade de importação em cerca de R$ 15/t) e a definição da safra de inverno brasileira, que entra no campo a partir de maio. Quem tem exposição a moagens, trading ou varejo de alimentos deve travar custos agora ou montar proteção cambial — a volatilidade promete seguir alta.
