O Ministério da Fazenda autorizou a garantia soberana para um novo empréstimo de R$ 7 bilhões aos Correios, operação que deve injetar R$ 5 bilhões no caixa da empresa já nos próximos dias. A medida tira a estatal do sufoco imediato, mas carrega condições que vão ditar o ritmo da reestruturação nos próximos anos.
A decisão, assinada pelo ministro Dario Durigan, sai no Diário Oficial desta quarta-feira (28). Com o aval da União, o risco para os credores cai drasticamente — o que explica a taxa de 114,84% do CDI, equivalente a cerca de 16% ao ano, abaixo do teto de 120% permitido pelo Tesouro.
Quatro bancos, um sindicato e a confiança no plano
Diferente da operação de dezembro de 2025 — quando cinco bancos públicos e privados precisaram ser articulados às pressas pelo governo —, desta vez a negociação teve tempo. O sindicato é formado por Banco ABC, Citibank, Deutsche Bank e J.P. Morgan.
Segundo interlocutores, a entrada desses bancos não se deve apenas à garantia do Tesouro. As instituições teriam aprovado os números do plano de reestruturação apresentado pela gestão atual, submetidos às respectivas áreas de risco e governança. Em junho, equipes dos Correios já se reuniam com o grupo para ajustar condicionantes da proposta.
O desenho do contrato: prazos, carência e gatilhos
A estrutura replica o primeiro empréstimo: 15 anos de prazo total, sendo três de carência sem pagamento de principal. Dois pontos chamam a atenção para quem acompanha a trajetória da empresa:
- Aporte obrigatório: cláusula de “melhores esforços” para captar ao menos R$ 6 bilhões da União até o fim de 2027 — valor já reservado no Orçamento.
- Vencimento antecipado: se houver privatização no futuro, o contrato deve ser quitado integralmente — prática padrão nesse tipo de operação.
O fantasma do TCU e a blindagem preventiva
O primeiro empréstimo, de R$ 12 bilhões, gerou questionamentos do Tribunal de Contas da União. Em maio, a corte apontou que a União assumiu “risco fiscal relevante” e pediu apuração de responsabilidades no Tesouro — o governo recorreu.
Para evitar repetição, a Fazenda convidou auditores do TCU a acompanhar cada etapa técnica desta nova operação: análise no comitê de garantias, minutas contratuais, parecer da PGFN. O acompanhamento não é auditoria formal, mas funciona como blindagem política e jurídica.
Prejuízo cai, mas a conta total ainda assusta
Os números do segundo trimestre mostram melhora: prejuízo de R$ 2,4 bilhões, queda de 5,5% frente ao mesmo período de 2025 e de 24,4% ante o primeiro trimestre de 2026. A necessidade total de caixa, antes estimada em R$ 20 bilhões, foi revista para R$ 19 bilhões.
Com os R$ 12 bilhões do primeiro empréstimo mais os R$ 7 bilhões agora aprovados, a cobertura chega a R$ 19 bilhões — exatamente o valor atualizado da necessidade. A margem é zero.
O que observar daqui para frente
Três variáveis vão ditar se o fôlego comprado agora se sustenta: a execução do plano de reestruturação nas metas operacionais, a concretização do aporte de R$ 6 bilhões da União no ano que vem e a capacidade da empresa de gerar caixa próprio a partir de 2027, quando a carência acaba e as amortizações começam. O próximo balanço trimestral será o primeiro termômetro real.
