O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) deixou o Brasil rumo aos Estados Unidos menos de 48 horas após a derrota nas urnas, pegando de surpresa até o coordenador de sua campanha presidencial. O movimento ocorre no momento exato em que o Supremo Tribunal Federal determinava a entrega de seus passaportes à Polícia Federal.
A fuga reconfigura o tabuleiro da oposição e acelera um calendário judicial que pode explodir em fevereiro de 2027, quando o parlamentar perde o foro privilegiado. Entenda por que este episódio vai muito além de uma saída discreta do país.
O dia em que a estratégia desmoronou
Na segunda-feira (26), o ministro Alexandre de Moraes ordenou, em segredo de justiça, que Flávio entregasse os documentos de viagem à PF. A decisão integra inquérito por lavagem de dinheiro que também envolve o advogado Willer Tomaz. Na terça pela manhã, o senador postou vídeo negando planos de saída e prometendo cumprir a ordem. Horas depois, já estava nos EUA com a família.
O cancelamento dos passaportes pela PF, consequência direta do descumprimento, tornou a manobra irreversível. A Reuters confirmou o embarque com fonte do governo americano. No Brasil, o senador eleito Carlos Jordy (PL-RJ) declarou publicamente: “Confirmado! Flávio Bolsonaro foi para os EUA para não ser usado como moeda de troca contra o impeachment de Moraes!”.
Marinho esperava liderança, encontrou vazio
Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha presidencial, revelou ter conversado com Flávio na véspera sobre a necessidade de assumir a liderança da oposição. “Temos 60 milhões de votos que exigem representação”, argumentou o senador potiguar. A mensagem de texto recebida às 8h da terça — “vou dar um tempo” — foi o último contato direto entre os dois.
A ausência do principal nome da chapa derrotada deixa o PL sem rosto visível para articular a bancada de 99 deputados e 14 senadores eleitos. O vácuo de poder interno tende a fortalecer lideranças regionais em detrimento de uma estratégia nacional unificada.
O relógio jurídico correndo contra o ex-candidato
Três frentes de investigação avançam simultaneamente na Polícia Federal:
- Evasão de divisas — movimentações financeiras não declaradas entre 2019 e 2022
- Lavagem de dinheiro — apuração no STF com quebra de sigilo bancário já autorizada
- Corrupção passiva — suspeita de recebimento de valores em esquema de “rachadinha” na Alerj
Em fevereiro de 2027, o mandato de senador expira. Sem foro privilegiado, os inquéritos descem para a primeira instância, onde a celeridade processual costuma ser maior. Advogados criminalistas ouvidos reservadamente estimam que denúncias formais podem surgir ainda no primeiro semestre do ano que vem.
Cenários para os próximos 90 dias
A ausência física do investigado cria um nó diplomático. O Brasil pode solicitar extradição se houver denúncia formal aceita pela Justiça, mas o tratado com os EUA exige dualidade de tipicidade — o crime deve existir nos dois ordenamentos. Lavagem de dinheiro e corrupção atendem ao requisito; evasão de divisas, não necessariamente.
Enquanto isso, o PL precisa definir: lança candidato próprio à presidência do Senado em 2025 ou apoia nome de consenso? A resposta ditará a capacidade de blindagem política nos dois anos restantes da legislatura.
O que observar daqui para frente
Três marcos merecem atenção imediata: a manifestação oficial do Itamaraty sobre a localização do parlamentar, o posicionamento da PGR sobre pedido de prisão preventiva por descumprimento de medida cautelar e a reação do eleitorado bolsonarista nas redes — termômetro da capacidade de mobilização sem o líder físico no país. O xadrez de 2027 começou a ser jogado na terça-feira. Quem mover as peças certas agora define o tabuleiro da próxima eleição.
