Justiça

Flávio Bolsonaro foge para os EUA e STF mantém duas investigações: o que muda agora

Flávio Bolsonaro embarcando em avião rumo aos EUA enquanto STF mantém investigações
Senador viaja aos EUA um dia após PF determinar entrega de passaportes; inquéritos seguem no Supremo.

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) deixou o Brasil rumo aos Estados Unidos nesta terça-feira (27), mas as duas investigações criminais que tramitam contra ele no Supremo Tribunal Federal (STF) seguem em andamento. A decisão de manter os processos na Corte vale mesmo após o fim do mandato parlamentar, previsto para 1º de fevereiro. A fuga ocorre menos de 48 horas após a derrota na disputa presidencial e um dia depois de a Polícia Federal determinar a entrega dos passaportes em 24 horas — prazo que expirou sem cumprimento, resultando no cancelamento dos documentos.

Duas frentes de investigação no Supremo

O parlamentar é alvo de dois inquéritos distintos. O primeiro apura a relação do senador com o advogado Willer Tomaz, investigado por lavagem de dinheiro envolvendo operações com bets. Segundo a Polícia Federal, uma secretária de Willer teria informado ao advogado sobre o cancelamento de uma conta vinculada à Alcazar Holdings, empresa sediada na Ilha da Madeira, em Portugal. Na semana passada, o ministro Alexandre de Moraes determinou o bloqueio de até R$ 6 bilhões em ativos do advogado, após a descoberta de que ele viajou para Miami após ser alvo da Operação Sem Desconto, em agosto.

O segundo inquérito investiga pagamentos do ex-banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o filme Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. A existência do financiamento veio a público em novembro do ano passado, após revelação do site The Intercept. Em julho de 2026, Flávio Bolsonaro foi formalmente incluído na investigação. O senador nega qualquer combinação de vantagem indevida e afirma que os recursos eram de origem privada.

Por que os processos não saem do STF

A permanência das investigações na Corte decorre da jurisprudência consolidada: quando os crimes são relacionados à função pública, a competência do Supremo se mantém mesmo após o término do mandato. Flávio Bolsonaro exerce o cargo de senador até 1º de fevereiro de 2027. Até lá, o foro privilegiado é automático. Depois, a tendência é que os inquéritos permaneçam nas mãos dos mesmos relatores.

  • Inquérito das bets: relatoria do ministro Alexandre de Moraes; bloqueio de R$ 6 bi determinado em outubro/2026
  • Inquérito do filme Dark Horse: Flávio incluído em julho/2026; apura pagamentos de Daniel Vorcaro
  • Mandato vigente: até 1º/02/2027 — foro privilegiado ativo
  • Passaportes: cancelados em 27/10/2026 após descumprimento de intimação da PF

A fuga e a articulação internacional

Relatos do investidor e ex-secretário de Turismo do México, Simón Levy, publicados nas redes sociais, dão conta de que a chegada de Flávio Bolsonaro aos EUA teria sido articulada pelo secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio. A agência Reuters confirmou a informação. A movimentação levanta questionamentos sobre a validade do cancelamento dos passaportes brasileiros — medida administrativa que impede a saída regular do país, mas não necessariamente impede a entrada em território estrangeiro por vias alternativas ou com documentos de outras nacionalidades.

Mas o efeito mais relevante aparece no campo diplomático. A suposta participação de uma autoridade do governo dos EUA na recepção de um investigado pelo STF pode gerar atritos institucionais e complicar eventuais pedidos de cooperação jurídica internacional no futuro.

O que observar daqui para frente

Os próximos passos dependem de três variáveis. Primeiro: a posição do STF sobre a revelia do investigado — se os processos avançam à revelia ou se haverá pedido de extradição. Segundo: a reação do governo brasileiro diante da suposta articulação diplomática dos EUA. Terceiro: o desfecho do bloqueio de R$ 6 bilhões de Willer Tomaz, que pode revelar fluxos financeiros ligados ao senador. Para empresários e investidores, o sinal é de que a instabilidade jurídica em torno de figuras centrais do cenário político recente permanece elevada, com impacto potencial sobre a percepção de risco país e a previsibilidade regulatória nos próximos meses.