Economia

Investidores estrangeiros dão ultimato: ajuste fiscal agora ou Brasil perde capital

Gráfico mostra saída de capital estrangeiro do Brasil com pressão por ajuste fiscal
Investidores globais exigem ajuste fiscal crível para manter capital no país

Gestoras globais que movimentam trilhões avisam: sem pacote crível nas próximas semanas, o real e os juros longos seguem sob pressão. A conta chega em 2027.

A reeleição de Lula mal foi confirmada e os grandes nomes do capital internacional já colocaram o governo contra a parede. A mensagem é direta: apresentem um ajuste fiscal convincente agora ou o fluxo de recursos secará.

O recado dos donos do dinheiro

A Robeco, gestora holandesa com US$ 450 bilhões sob gestão, não usa meias palavras. Daniela da Costa-Bulthuis, head de mercados emergentes, resume: “sem sinais como um pacote fiscal crível, medidas compensatórias ou a redução dos novos compromissos de gastos, a pressão sobre o real e os juros de longo prazo poderá persistir”.

Traduzindo: o mercado não comprará promessas vagas. Quer números, prazos e execução.

Morgan Stanley projeta tempestade

O banco americano foi mais longe. Em relatório distribuído a clientes, projeta queda de 20% a 30% nas ações brasileiras no próximo ciclo e enfraquecimento da economia em 2027 — justamente quando o ajuste se tornaria “ainda mais urgente”.

As simulações assustam: a dívida bruta, hoje na casa dos 80% do PIB, bateria 106% em 2035 se o ajuste for tardio e superficial.

De onde vem a pressão extra

O Morgan Stanley lista cinco medidas do ciclo eleitoral que incham a conta:

  • Reajuste do Bolsa Família
  • Perda de R$ 5 bi em arrecadação com a proibição das bets
  • Terceira edição do Desenrola
  • Promessas para microempreendedores individuais
  • Subsídios a combustíveis (guerra no Oriente Médio)

Cada item tem apelo social. Juntos, furam o teto.

Janela decisiva: próximo mês

Investidores miram duas definições imediatas: o nome para a Fazenda e a revisão do Orçamento 2027. Em 2022, Fernando Haddad foi anunciado na primeira quinzena de dezembro. O relógio corre no mesmo ritmo.

A credibilidade do pacote fiscal e a capacidade do Banco Central manter o ciclo de queda de juros são as variáveis que ditam o preço dos ativos brasileiros hoje.

Congresso à direita: ameaça ou freio?

Senado e Câmara terão as composições mais conservadoras do mandato. O PL, de Bolsonaro, comanda as maiores bancadas. Para a Robeco, não é necessariamente ruim.

“A fragmentação política pode dificultar a aprovação das medidas necessárias, mas essas restrições institucionais também podem oferecer mecanismos de controle e equilíbrio sobre políticas que os mercados consideram menos favoráveis”, diz Bulthuis.

A questão deixa de ser “governo vs. oposição” e vira: a administração consegue construir maioria funcional para um orçamento crível sem quebrar a disciplina fiscal?

ESG ajuda, mas não salva sozinho

O menor desmatamento da Amazônia e Cerrado no governo Lula 3 é sinal positivo. Bulthuis alerta: “investidores ESG não são instituições de caridade”. Governança, credibilidade fiscal, ambiente de crédito e práticas corporativas pesam tanto quanto indicadores ambientais.

O progresso verde fortalece a tese de investimento. Não substitui ajuste nas contas.

O que observar daqui para frente

Três sinais dirão se o governo entendeu o recado: anúncio do ministro da Fazenda com perfil técnico e autonomia política; envio de proposta de revisão orçamentária com cortes reais (não maquiagem contábil); e articulação visível com lideranças do Centrão e da oposição para aprovar o pacote ainda no primeiro semestre.

Sem isso, a conta de 2027 chega antes — e o Brasil paga com juros altos, câmbio pressionado e fuga de capital. O relógio não para.