A arrecadação federal de julho subiu 9% em termos reais e atingiu R$ 289,3 bilhões, o melhor resultado para o mês desde 1995. O impulso veio de duas fontes específicas: o IOF e o imposto sobre exportação de petróleo. Mas o que isso significa para o bolso do empresário e para o cenário fiscal dos próximos meses?
Os números foram divulgados pela Receita Federal na terça-feira (25), sem a tradicional coletiva de imprensa — que ficou para quinta (27). A publicação silenciosa no site do Fisco não esconde o dado central: a máquina pública segue turbinada por tributos criados ou ampliados em 2024.
O peso do IOF na receita
O IOF, elevado pela equipe econômica no ano passado para ajudar no cumprimento das metas fiscais, cresceu 19% em relação ao mesmo mês de 2025. É uma alta expressiva para um imposto que afeta diretamente operações de crédito, câmbio e seguros.
Para o empresário que capta recursos no exterior ou opera com hedge cambial, o efeito é sentido na ponta: o custo das operações financeiras fica mais caro, e a arrecadação maior reflete exatamente esse movimento.
Petróleo: R$ 3 bilhões em um mês
O imposto de exportação sobre óleo bruto gerou R$ 3 bilhões em julho. Criado em março por medida provisória para compensar a desoneração dos combustíveis, o tributo já rendeu R$ 8 bilhões no acumulado do ano.
A incidência vale para as petroleiras e foi prorrogada pela Camex por mais 60 dias a partir de 10 de julho. Ou seja: a fonte continua ativa pelo menos até setembro, sustentando a arrecadação num momento em que o governo precisa de receitas para fechar as contas.
O que falta para a meta fiscal
A meta de superávit primário para 2025 é de R$ 34,3 bilhões, mas o arcabouço fiscal permite um resultado de até zero para efeitos de cumprimento — uma variação negativa de 0,25% do PIB é tolerada. Isso dá alguma folga, mas não elimina a pressão por receitas.
- Acumulado do ano: R$ 1,8 trilhão de janeiro a julho, alta real de 7%.
- Previdência: tributação cresceu 5,50% no mês, impulsionada pelo aumento real de 5,30% da massa salarial.
- Dividendos: arrecadação segue baixa — R$ 2,2 bilhões de janeiro a junho, apenas 8% do esperado.
O caso dos dividendos
A tributação sobre dividendos, prometida como uma das grandes novidades do pacote fiscal, segue decepcionando. O governo já reduziu a projeção de arrecadação anual de R$ 28 bilhões para R$ 17,2 bilhões, mas mesmo essa meta parece distante.
O TCU pediu explicações à Receita sobre os números. Se a arrecadação não engrenar no segundo semestre, o impacto no caixa pode forçar novos ajustes ou revisões nas metas.
O efeito nos pequenos negócios
Para pequenas e médias empresas, o cenário é de atenção. O IOF mais caro encarece o crédito, e a tributação sobre o petróleo pode pressionar custos logísticos e de insumos — ainda que o governo argumente que a medida compensa desonerações anteriores.
O crescimento da arrecadação previdenciária, por outro lado, indica mercado de trabalho aquecido, o que sustenta o consumo e a demanda por serviços. É um sinal positivo, mas que precisa ser lido com cautela.
O que observar daqui pra frente
Os próximos meses serão decisivos para avaliar se a arrecadação mantém o ritmo. O imposto sobre exportação de petróleo tem prazo para acabar, e o IOF pode ser revisto se a meta fiscal for atingida antes do previsto.
Para o investidor e o gestor, o ponto de atenção é o seguinte: a qualidade da arrecadação importa tanto quanto o volume. Dependência de tributos temporários e de commodities indica fragilidade estrutural. Se a economia desacelerar no quarto trimestre, o impacto nas contas públicas pode aparecer já em 2026.
O monitoramento das decisões da Camex sobre o imposto do petróleo e eventuais mudanças no IOF são os dois sinais mais claros para antecipar movimentos do câmbio e do crédito nos próximos meses.
