Economia

Terras raras em Goiás: a cidade que renasce das cinzas do amianto

Vista aérea da cidade de Minaçu em Goiás, com mina de terras raras e vegetação do cerrado ao redor
Minaçu, em Goiás, troca o amianto por terras raras e atrai bilhões em investimentos.

Uma cidade goiana que passou décadas à sombra do amianto agora se tornou o epicentro de uma disputa geopolítica bilionária. Minaçu, que viu sua principal atividade econômica definhar após proibições ao mineral, atrai investimentos de mais de R$ 14 bilhões e promete reescrever sua história — mas o caminho até lá é cheio de desafios.

O que está em jogo vai muito além da economia local: são os chamados “minerais do futuro”, essenciais para carros elétricos, turbinas eólicas e tecnologia militar.

O renascimento de uma cidade

Durante anos, Minaçu, no norte de Goiás, viveu da extração de amianto — a última mina das Américas. Com a proibição do material no Brasil em 2017, a cidade de 27 mil habitantes viu o futuro escurecer. O comércio esvaziou, os jovens foram embora e a sensação era de abandono.

Hoje, o cenário é outro. A mineradora Serra Verde começou a produzir terras raras pesadas em escala comercial há cerca de dois anos, e a cidade voltou a respirar. O prefeito Carlos Alberto Leréia compara o momento a uma corda jogada para quem está se afogando: “É preciso agarrá-la”.

Por que o mundo inteiro está de olho em Minaçu

As terras raras são um grupo de 17 elementos metálicos usados em praticamente toda tecnologia moderna. Disprósio e térbio — dois dos mais críticos — são fundamentais para ímãs potentes que equipam desde mísseis guiados até motores de veículos elétricos.

A China domina quase todo o processamento global desses minerais. Em 2024, Pequim restringiu exportações em resposta às tarifas americanas, acirrando a disputa comercial com os EUA. Foi nesse cenário que Minaçu virou peça-chave.

A Serra Verde afirma ser a única operação fora da Ásia capaz de extrair em escala esses elementos mais escassos. O governo americano, por meio da USA Rare Earth — que comprou a mineradora por US$ 2,8 bilhões —, já injetou mais de US$ 500 milhões em financiamento público no projeto.

O que muda para o Brasil

O país tem as segundas maiores reservas de terras raras do mundo, atrás apenas da China. Mas há um dilema: o acordo de fornecimento de 15 anos entre a Serra Verde e uma entidade apoiada pelos EUA pode limitar a capacidade brasileira de desenvolver sua própria indústria de processamento.

Especialistas apontam que, sem refino local, o Brasil corre o risco de continuar apenas exportando matéria-prima — enquanto a China domina a etapa de maior valor agregado. O governo Lula defende a criação de uma cadeia industrial completa no país.

Números que impressionam

  • US$ 1 bilhão: investimento total no complexo da Serra Verde em Minaçu
  • US$ 2,8 bilhões: valor da aquisição pela USA Rare Earth, anunciada em abril
  • 6.400 toneladas: meta anual de produção de óxidos de terras raras
  • 50%+: participação pretendida no fornecimento global de terras raras pesadas fora da China até 2026
  • 600: empregos diretos gerados na região

O outro lado da moeda

Moradores relatam que córregos próximos à mina mudaram de cor após chuvas fortes, com uma camada oleosa na superfície. O produtor rural Aníbal de Oliveira, de 77 anos, diz que “a água que escorre vem suja, avermelhada”. A empresa afirma que leva os impactos ambientais a sério e trabalha com órgãos reguladores para mitigar problemas.

A mineradora também já recebeu multa após comunicar voluntariamente um desmatamento não autorizado em 2023.

O futuro de Minaçu

Apesar dos desafios, a cidade vê sinais de recuperação. A sorveteria de Thais Oliveira, por exemplo, registrou aumento de 25% nas vendas desde o início das operações. “A cidade estava morta. Agora está voltando a ser como era antes”, conta.

Mas nem todos colhem os frutos. O recepcionista Nathanael Pereira Rodrigues fez curso de motorista de caminhão para tentar uma vaga na mina — e ainda espera ser chamado. “Eles só querem mão de obra qualificada”, lamenta.

O que observar daqui para frente

O projeto da Serra Verde levou 15 anos entre o primeiro estudo e o embarque da produção — um retrato dos obstáculos burocráticos que projetos desse porte enfrentam no Brasil. Novas refinarias estão sendo planejadas em outros países, e a corrida por terras raras deve se intensificar.

Para o empresário e o investidor, o caso de Minaçu mostra uma oportunidade real de participação em um setor estratégico global — mas também expõe os riscos de apostar em um mercado ainda dominado por poucos players. A pergunta que fica é: o Brasil vai conseguir transformar sua riqueza mineral em desenvolvimento industrial, ou continuará apenas como fornecedor de matéria-prima?

Com as eleições de outubro no horizonte e a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro colocando o tema na pauta política, a resposta pode definir não só o futuro de Minaçu, mas o posicionamento do país em uma das áreas mais disputadas da economia mundial.