Economistas consultados pelo Banco Central cortaram as projeções de inflação, PIB e dólar para o fim de 2026, mas mantêm a Selic em 13,25% — um sinal de que o ciclo de cortes será lento e cauteloso. A pesquisa foi fechada na sexta-feira (23), antes do resultado das urnas. O que vem depois pode mudar tudo.
O IPCA esperado para dezembro de 2026 recuou de 5,22% para 5,19%. Parece pouco, mas quebra uma sequência de altas e aproxima a estimativa do teto da meta, hoje em 4,5%. Para 2027, a projeção subiu levemente a 4,34%. Em 2028, segue parada em 3,75%, ainda acima do centro da meta de 3%.
O que os números revelam sobre o bolso do empresário
Crescimento menor, juros altos por mais tempo. O PIB projetado para 2026 caiu de 1,83% para 1,80%. Para 2027, a estimativa recuou a 1,31%. Isso significa demanda mais fraca, crédito caro e margens pressionadas — especialmente em setores sensíveis a juros, como construção, varejo duráveis e indústria de transformação.
O dólar esperado para o fim de 2026 caiu de R$ 5,13 para R$ 5,05. Para 2027, a projeção recuou a R$ 5,15. A moeda mais barata ajuda a conter inflação de importados e alivia custos de insumos dolarizados. Mas o alívio cambial não compensa o custo de capital elevado.
Selic: o cronograma que o mercado desenhou
- Novembro: corte de 0,25 pp (para 13,00%)
- Dezembro: novo corte de 0,25 pp (para 12,75%)
- Fim de 2026: Selic a 13,25% (expectativa mantida)
- Fim de 2027: Selic a 11,75% (ante 12% na semana anterior)
O ritmo é de “gotejamento”. O Copom sinaliza cautela: inflação ainda acima da meta, expectativas desancoradas no horizonte relevante e incerteza fiscal. Cada corte depende de dados — e de comportamento das expectativas nas próximas edições do Focus.
O fator político que o boletim não capturou
A pesquisa encerrou-se antes do segundo turno. A reeleição de Lula provocou queda forte de ativos brasileiros no exterior na manhã desta segunda. O real e as ações pressionados sugerem que o mercado precifica risco fiscal maior — o que pode forçar revisão altista no dólar e na Selic nas próximas semanas.
Agentes financeiros viam na oposição maior chance de ajuste nas contas públicas, embora nenhum plano concreto tenha sido apresentado. Agora, a equipe econômica precisa entregar credibilidade na prática. O arcabouço fiscal será testado já no Orçamento de 2025.
Cenários para os próximos 30 dias
Três variáveis vão ditar a próxima rodada do Focus:
- Comunicação do Copom na ata de novembro: tom mais duro ou abertura para cortes maiores?
- Medidas fiscais anunciadas pela nova equipe econômica: corte de gastos ou apenas receitas?
- Comportamento do câmbio: se o dólar romper R$ 5,20 sustentado, a inflação de 2026 volta a subir.
Enquanto isso, o empresário que planeja 2025 deve trabalhar com juros reais elevados, crédito seletivo e cenário de demanda moderada. O alívio virá — mas em parcelas pequenas, condicionadas a entregas fiscais que ainda não aconteceram.
O que observar daqui para frente
A próxima edição do Focus, na segunda-feira (3), trará a primeira leitura pós-eleição. Se as expectativas de inflação e câmbio subirem, o Copom pode adiar ou reduzir o corte de novembro. O prêmio de risco Brasil está sendo reprecificado em tempo real. Quem toma decisão de investimento, precificação ou hedge precisa acompanhar não só os números — mas a narrativa fiscal que o governo construir nas próximas semanas.
