Um estudo apresentado à Associação Americana do Coração revela que o uso prolongado de melatonina eleva em 89% o risco de insuficiência cardíaca em cinco anos. A descoberta acende um alerta vermelho para milhões que consomem o suplemento sem receita. O que parecia inofensivo pode ter um custo alto.
Os números que assustam os especialistas
A pesquisa cruzou dados de 65.414 usuários crônicos com igual número de não usuários, todos diagnosticados com insônia. Apenas quem tinha prescrição médica e pelo menos um ano de uso entrou na análise. Pacientes com histórico prévio de falha cardíaca foram excluídos para isolar o efeito do suplemento.
O resultado bruto é contundente: 3.021 novos casos de insuficiência cardíaca no grupo da melatonina contra 1.797 no grupo controle. Mas a gravidade vai além do diagnóstico inicial.
- Internações: Risco mais de 3 vezes maior (19% dos usuários precisaram de hospitalização).
- Mortalidade: Risco aproximadamente 2 vezes maior por todas as causas.
Por que o “hormônio do sono” virou alvo
A melatonina regula o relógio biológico naturalmente. A versão sintética, porém, virou commodity: nos EUA, vende-se livremente em prateleiras de supermercado, sem controle de dose nem tempo de tratamento. Esse cenário de automedicação em massa foi o gatilho para a investigação.
Os pesquisadores usaram registros de prescrição, o que cria um viés importante. Quem comprou por conta própria pode ter caído no grupo “não usuário”, mascarando um risco potencialmente ainda maior. Mesmo assim, a associação estatística forte sobreviveu à análise.
O impacto direto no bolso e na gestão de saúde
Para operadoras de saúde e gestores de benefícios corporativos, o sinal é claro: a suplementação indiscriminada gera custos ocultos. Internações por insuficiência cardíaca estão entre as mais caras do sistema. A conta chega via sinistralidade e absenteísmo de longa duração.
Além disso, a população-alvo — adultos com insônia crônica — já costuma apresentar comorbidades metabólicas. Adicionar um fator de risco cardiovascular não monitorado quebra a lógica de medicina preventiva baseada em evidência.
O que a ciência ainda não respondeu
O estudo é observacional e preliminar (resumo na revista Circulation, nov/2025). Mostra correlação, não causalidade. Não há dados sobre dosagem exata, formulação (liberação imediata vs. prolongada) nem interação com outros fármacos. O uso ocasional ou de curto prazo não foi avaliado.
Os próprios autores pedem ensaios clínicos randomizados para testar a segurança cardiovascular. Até lá, a prescrição off-label prolongada fica sem respaldo robusto.
O que observar daqui para frente
Monitore três frentes: 1. Publicação do artigo completo revisado por pares — os detalhes metodológicos podem modular a força da associação. 2. Posicionamento de sociedades de cardiologia e endocrinologia sobre diretrizes de uso crônico. 3. Movimento regulatório: se a FDA ou Anvisa exigirem aviso de risco cardiovascular na bula, o mercado de suplementos para dormir mudará de patamar.
Enquanto a evidência definitiva não chega, a regra de ouro para o tomador de decisão é simples: trate melatonina como medicamento, não como vitamina. Exija prescrição, tempo definido e revisão periódica. O custo da negligência pode ser medido em leitos de UTI.
