Cultura

O segredo que ninguém conta: por que pastores “jogaram parado” na campanha de Flávio Bolsonaro

Flávio Bolsonaro cercado por líderes evangélicos em ato de campanha no Rio de Janeiro
Apoio tardio da bancada evangélica a Flávio Bolsonaro revela cálculo pragmático, não convicção ideológica.

A aliança entre a bancada evangélica e Flávio Bolsonaro nas urnas cariocas esconde um cálculo frio: os principais líderes religiosos não queriam o senador. Eles entraram em campo tardiamente, movidos por pragmatismo e pressão da base, não por convicção.

O apoio que chegou tarde — e por interesse

Em setembro, o cenário virou. André Mendonça expôs mensagens entre Alexandre de Moraes e o banqueiro Vorcaro, além do contrato da esposa do ministro. O Supremo virou alvo, a base bolsonarista se mobilizou e os pastores — que até então mantinham silêncio — subiram nos palanques.

Antes disso, a pré-campanha correu sem a máquina religiosa. Silas Malafaia, em abril, chegou a dizer em vídeo que “candidatura não é negócio de família” e defendeu Tarcísio de Freitas. No mesmo mês, na Assembleia de Deus Belém, o pastor Marco Feliciano cobrou reciprocidade da família Bolsonaro diante de centenas de obreiros.

A comparação bíblica que circula nos bastidores

Em conversas reservadas, lideranças comparam os Bolsonaro à casa de Eli, sacerdote do Antigo Testamento. A leitura: um pai honrado que não conteve os filhos, acusados de desviar ofertas e cometer abusos. O paralelo pesa contra Flávio — a mansão de R$ 6 milhões financiada pelo BRB, imóveis quitados em dinheiro vivo, recursos de Vorcaro para o filme sobre Jair e a mentira admitida sobre encontros com o ex-banqueiro.

“Novo crente”: o rótulo que incomoda

Um interlocutor direto definiu Flávio como “novo crente” — termo análogo a “novo rico”. A crítica: alguém que usa a fé como vitrine política sem domínio bíblico, chegado à religião por uma igreja vista como seduzida pelo poder, a Comunidade das Nações. A percepção dificulta a confiança dos caciques evangélicos tradicionais.

Por que subiram no palanque, afinal?

Três fatores decidiram o apoio final:

  • Flávio era o único nome da direita com voto bolsonarista consolidado e chance real de vitória.
  • A pressão dos fiéis — que cobravam posicionamento — tornou o silêncio insustentável.
  • O cálculo de proximidade com um futuro presidente da República.

Mas a adesão não apaga o diagnóstico anterior: antes da virada, pastores admitiam entre si que 2026 já estava perdido e projetavam Tarcísio para 2030.

O xadrez que segue após a eleição

O PT evitou citar Otoni de Paula na vitória. Conservador nos costumes e ex-cabo eleitoral do bolsonarismo, o deputado não se reelegeu ao declarar voto em Lula no primeiro turno. Mesmo visto com desconfiança petista, pode virar ponte para negociar com as grandes denominações — algo que o partido e seus evangélicos não conseguiram ou não quiseram fazer até aqui.

O que observar daqui para frente

A relação entre poder executivo e liderança evangélica no Rio entra em nova fase. Flávio governa com uma base religiosa que o apoiou por cálculo de sobrevivência, não por alinhamento pleno. A cobrança por reciprocidade — prometida, cobrada e adiada — tende a escalar nos primeiros meses de mandato. Para investidores e articuladores políticos, o termômetro será a nomeação de indicados para áreas sensíveis (educação, assistência social, cultura) e a disposição do Senado em pautar temas caros ao eleitorado conservador. Quem ler apenas o resultado das urnas perde o jogo real: a negociação permanente que começa no dia seguinte à posse.