A reforma tributária sobre o consumo cria uma trava inédita no capital de giro das empresas: o comprador só acessa o crédito da CBS depois que o fornecedor pagar o imposto. Em cenário normal, o atraso médio chega a 33 dias. Se o parceiro inadimplir, o prazo salta para 63 dias.
O dado vem de um levantamento da Roit que analisou 65 grupos empresariais e 295 mil fornecedores, responsáveis por R$ 608,8 bilhões em compras anuais. O volume de créditos que deixarão de ser recuperados no primeiro ano soma R$ 16,35 bilhões — valor que ficará embutido no custo dos insumos e, por fim, no preço ao consumidor.
Por que a lógica inverteu e o que muda na prática
Hoje, a empresa toma o crédito no momento da aquisição. Com a CBS, que substitui PIS/Cofins, IOF sobre seguros e parte do IPI a partir de 1º de janeiro de 2027, o direito ao crédito nasce somente após o recolhimento do tributo pelo vendedor. Na prática, o prazo de pagamento do fornecedor passa a ditar a liquidez do comprador.
Lucas Ribeiro, CEO da Roit, resume o impacto: a tesouraria deixará de ser autônoma. A disponibilidade financeira dependerá da disciplina fiscal de terceiros, o que exige revisão urgente de contratos e políticas de compras.
Os números que expõem a dimensão do problema
- 33 dias de espera média para aproveitamento do crédito em operações regulares
- 63 dias em caso de inadimplência do fornecedor
- R$ 16,35 bi em créditos travados no primeiro ano apenas na amostra analisada
- 295 mil fornecedores mapeados — a cadeia real é muito maior
Esses prazos não são teóricos. Representam capital de giro imobilizado, necessidade de financiamento de curto prazo e pressão direta sobre a margem operacional.
O que precisa ser feito até 31 de dezembro de 2026
A data-limite não é arbitrária. Até o fim deste ano, as companhias devem parametrizar ERPs, renegociar prazos e cláusulas de penalidade, e alinhar as áreas jurídica, fiscal, comercial e financeira. Quem deixar para janeiro de 2027 entrará no novo regime com contratos desenhados para a lógica antiga.
Mas há uma incógnita que atrapalha o planejamento: a alíquota da CBS ainda não foi definida. O TCU deve apresentar o número até a próxima sexta-feira (30), a menos de 70 dias do início da vigência. E o Senado pode alterar o percentual até o final do ano.
O efeito nos pequenos e médios fornecedores
Grandes grupos costumam ter fluxo de caixa robusto e acesso a linhas de crédito. Já os fornecedores de menor porte — que compõem a base das 295 mil empresas mapeadas — tendem a sentir primeiro o aperto. Atrasos no recolhimento da CBS por parte desses parceiros se traduzem em travamento de crédito para o comprador, criando efeito cascata.
A Roit alerta que a concentração de risco em fornecedores estratégicos precisa ser mapeada. Diversificar a base de suprimento e incluir cláusulas de garantia de recolhimento tributário deixam de ser boas práticas para virar exigência de sobrevivência financeira.
O que observar daqui para frente
Três variáveis vão ditar o tamanho do impacto real a partir de janeiro: a alíquota final da CBS, a velocidade de adaptação dos ERPs do mercado e a taxa de inadimplência tributária na cadeia de fornecimento. Empresas que já simularam cenários com 33 e 63 dias de travamento saem na frente. As que esperam a definição da alíquota para agir correm o risco de entrar em 2027 com o caixa pressionado e contratos desatualizados.
