Justiça

PF abre inquérito: falta de ônibus no 2º turno pode ter travado seu voto?

Polícia Federal investiga redução de frota de ônibus no 2º turno das eleições em cinco estados
PF apura se falta de ônibus no segundo turno dificultou acesso às urnas.

A Polícia Federal abriu inquérito para apurar se a redução da frota de ônibus no segundo turno das eleições, em 25 de outubro, impediu ou dificultou o acesso de eleitores às urnas em cinco estados. A investigação mira possíveis crimes eleitorais com pena de até seis meses de prisão.

O caso ganhou repercussão após a campanha do então candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT) solicitar a prorrogação do horário de votação — pedido acatado pelo STF e pelo TSE, que estenderam o encerramento para as 19h. Mas a pergunta que permanece é: quantos eleitores deixaram de votar por não ter como chegar à seção?

O que diz a lei para quem travou o eleitor

O artigo 297 do Código Eleitoral é claro: quem “impedir ou embaraçar o exercício do sufrágio” está sujeito a detenção de seis meses e pagamento de multa. A PF já confirmou que as apurações envolvem Sergipe — onde o inquérito foi formalizado — além de São Paulo, Bahia, Alagoas e Piauí.

O diretor de Investigação e Combate ao Crime Organizado e à Corrupção da PF, Dennis Cali, afirmou em coletiva no domingo que as diligências incluem oitivas e verificações in loco. A corporação atua em parceria com tribunais regionais eleitorais, Ministério Público Eleitoral e demais forças policiais.

Para empresários do setor de transporte e gestores públicos, o dispositivo legal acende um alerta: a responsabilidade pode recair sobre concessionárias, prefeituras ou órgãos reguladores que autorizaram ou deixaram de fiscalizar a operação reduzida.

Como a prorrogação de duas horas funcionou na prática

A extensão do horário até as 19h foi uma medida excepcional, adotada para mitigar o impacto da frota reduzida. Segundo o TSE, a decisão valeu para localidades onde a circulação de ônibus estava comprometida, mas não houve divulgação de lista oficial dos municípios contemplados.

Especialistas em direito eleitoral apontam que a prorrogação resolve parte do problema logístico, mas não apaga a potencial irregularidade. Se ficar comprovado que a redução foi intencional ou negligente, os responsáveis respondem criminalmente — independentemente de o eleitor ter conseguido votar depois.

Números da operação: 56 conduzidos e 44 termos circunstanciados

Até o início da noite de domingo (25), a PF contabilizava:

  • 3 inquéritos policiais abertos especificamente sobre a frota de ônibus;
  • 44 termos circunstanciados lavrados para apurar diferentes crimes eleitorais;
  • 56 pessoas conduzidas a delegacias para prestar esclarecimentos.

A maior parte das ocorrências registradas não está ligada diretamente ao transporte: violação do sigilo do voto, propaganda irregular e desobediência eleitoral lideram as estatísticas. Ainda assim, o volume de procedimentos sinaliza um dia de votação com alta incidência de irregularidades formais.

Reações institucionais e o que vem a seguir

A Organização dos Estados Americanos (OEA) acompanhou as denúncias de falta de ônibus. Centrais sindicais criticaram a redução da frota, e o PT notificou o TRE-SP sobre a situação na capital paulista. O Ministério Público Eleitoral deve requisitar cópias dos inquéritos para avaliar eventuais ações civis públicas.

Do ponto de vista de risco regulatório, operadores de transporte urbano e intermunicipal devem revisar planos de contingência para dias de eleição. Cláusulas contratuais que prevejam manutenção de frota mínima em datas de votação passam a ser não apenas recomendáveis, mas juridicamente prudentes.

O que observar daqui pra frente

Os inquéritos devem avançar nas próximas semanas com a análise de planilhas de escala, ordens de serviço e comunicações internas de empresas e prefeituras. Se houver indícios de coordenação para reduzir a oferta de transporte em áreas com perfil eleitoral definido, o caso pode escalar para investigação de crime organizado.

Para investidores e gestores, o desfecho desse processo ditará o novo padrão de exigência legal para logística eleitoral. Acompanhar as decisões dos TREs e eventuais recomendações do TSE para 2028 será essencial para calibrar contratos, seguros e estratégias de compliance no setor de mobilidade.