O mercado financeiro acordou em pânico nesta segunda-feira (26) após a vitória inesperada de Lula para um quarto mandato. A reação violenta nos juros, no dólar e no risco-Brasil assustou até investidores experientes, mas o pior ainda pode estar por vir.
Quem aplicou recursos acreditando na continuidade de uma agenda fiscal conservadora viu o cenário inverter da noite para o dia. A pergunta que fica: o novo governo conseguirá reverter a desconfiança antes que o custo da dívida se torne insustentável?
Por que o mercado entrou em pânico agora
A surpresa não foi apenas o resultado eleitoral. Até o fim de semana, a precificação majoritária embutia vitória da oposição. Gestores e “donos do dinheiro grosso” — muitos ausentes em condomínios de alto padrão no interior paulista — não protegeram carteiras contra o cenário adverso.
O resultado imediato: taxas de juros reais voltaram aos piores níveis de 2026, o real sofreu aversão acima da média emergente e o risco-país saltou. O Ibovespa evitou o fundo do poço de meados de ano, mas o movimento técnico de overshooting (exagero momentâneo) sugere instabilidade prolongada.
Não se trata de conspiração ou retaliação ideológica. Quando a probabilidade de ajuste fiscal cai, o preço dos títulos públicos cai e os juros sobem. Matemática pura.
O rombo fiscal que ninguém esperava
O histórico recente pesa contra. No terceiro mandato, Lula perdeu credibilidade com o mercado a partir de meados de 2024, ao alterar regras fiscais recém-aprovadas. O pacote de fim de ano foi classificado como “deplorável” por analistas independentes.
Herança concreta para o quarto mandato:
- R$ 50 a 60 bilhões de buraco fiscal adicional
- Dívida pública em trajetória explosiva
- Crescimento projetado para 2027 inferior a 2026
- Receitas pressionadas por PIB mais fraco
Fazer ajuste em ano de receita estagnada é exponencialmente mais difícil do que em expansão.
O Congresso que Lula 4 vai enfrentar
O Legislativo eleito é majoritariamente de centro-direita e hostil ao PT. Diferente de 2022, não há “lua de mel” institucional. Para aprovar qualquer plano fiscal crível, o governo precisará de concertação ampla — cedendo poder, negociando com adversários e expondo-se ao desgaste da base militante que o elegeu.
Ao mesmo tempo, quase metade do eleitorado tem aversão declarada ao presidente. A popularidade inicial tende a ser medíocre, como ocorre desde 2018. Um ano de economia fraca, juros altos e desemprego em alta talhará ainda mais o capital político.
O que o investidor deve observar daqui para frente
Três sinais dirão se o pânico se justifica ou exagera:
- Nomes para a equipe econômica: anúncio de lideranças com reputação de ortodoxia e autonomia política
- Plano fiscal de longo prazo: metas claras, críveis e com gatilhos automáticos de correção
- Primeira medida concreta: contenção de despesa obrigatória, não promessa de receita futura
Sem isso, a segunda-feira de “refresco” virará terça de tempestade. O custo de esperar para ver é pago em taxa de juros mais alta para toda a economia — do crédito imobiliário ao capital de giro das pequenas empresas.
O gênio político necessário para equilibrar ajuste fiscal, base social e Congresso hostil não está no manual. Mas a conta chega para todos, e o relógio começou a correr.
