O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) defendeu o trabalho por hora como alternativa ao fim da escala 6×1, mas o espelho britânico revela um cenário de renda instável para 1,23 milhão de pessoas. O modelo proposto no Brasil via PEC 12/2026 espelha de perto os contratos de zero hora do Reino Unido, onde a liberdade de escolher a jornada costuma significar, na prática, a incapacidade de planejar o mês seguinte.
Dados do Office for National Statistics (ONS) mostram que, no segundo trimestre de 2026, 3,6% da força de trabalho britânica com 16 anos ou mais vivia sob esse regime. O número permanece acima de 1 milhão desde 2020, concentrando-se em setores de baixa remuneração e mão de obra jovem. Mas o que isso tem a ver com o empresário ou investidor brasileiro? Tudo.
O perfil da precariedade: quem paga a conta da flexibilidade
Não são executivos ou especialistas que dominam essa estatística. No Reino Unido, 42% dos trabalhadores em contratos de zero hora ocupam funções básicas — limpeza, logística, apoio em cozinhas e bares. Apenas 1,9% estão em cargos de gerência ou direção. A faixa etária mais afetada é a de 16 a 24 anos, que responde por 12,7% do total nesse modelo.
A concentração setorial é reveladora para quem gere negócios:
- Hospedagem e alimentação: 27,4% dos contratos;
- Transporte, armazenamento, artes e recreação: 18,7%;
- Saúde e assistência social: 13,2%.
Em 2025, 11,1% desses postos eram classificados como “baixa remuneração” (menos de £ 11,97/hora), enquanto o salário mínimo para maiores de 21 anos era de £ 12,71. A flexibilidade, aqui, caminha lado a lado com o piso salarial.
A PEC brasileira e o “primo” intermitente
A proposta do senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha de Flávio, permite ao empregado optar entre a CLT padrão e um regime flexível baseado em horas trabalhadas. O texto vende a ideia de conciliação entre vida pessoal e demandas de mercado.
Juridicamente, o modelo britânico se assemelha ao contrato intermitente inserido na CLT em 2017. A diferença crucial está na proteção: o Brasil exige procedimento formal de convocação, aceite e pagamento. No Reino Unido, a amplitude é maior e a segurança varia conforme o status jurídico do vínculo. Nos dois casos, porém, o risco da ociosidade migra do balanço da empresa para o bolso do trabalhador.
O que a ciência descobriu sobre a “liberdade” de escolher turnos
Um estudo da Work Foundation (Universidade de Lancaster), publicado em agosto de 2026, acompanhou trabalhadores dependentes desses contratos como renda principal por uma semana. O veredito: o problema não é a quantidade de horas, mas a impossibilidade de planejar a vida.
Um entrevistado, assistente de eventos com quatro contratos simultâneos, resumiu o dilema: não quer um expediente rígido das 9h às 17h, mas exige carga horária garantida e direitos. A pesquisa aponta um desequilíbrio de poder estrutural: o empregador dita a oferta, o trabalhador aceita ou perde a vaga.
O mundo já está corrigendo a rota
Enquanto o debate brasileiro flerta com a importação do modelo, outras nações avançam na direção oposta, criando pisos de garantia:
- Austrália (2024): nova definição de “casual” exige ausência de compromisso firme e via de transição para emprego permanente.
- Países Baixos: Parlamento aprovou fim dos contratos de zero hora, substituindo por faixas de horas garantidas (vigência 2028).
- Irlanda (2018): restringiu práticas de zero hora e fixou pagamentos mínimos por convocação sem trabalho.
- Nova Zelândia: cláusulas de disponibilidade só valem com motivo genuíno, compensação e horas garantidas.
O que observar daqui para frente
Para gestores e investidores, o sinal é claro: a tendência global é reduzir a assimetria de risco, não ampliá-la. Se a PEC 12/2026 ou similares avançarem, a implementação prática exigirá governança rigorosa para evitar passivos trabalhistas e danos de reputação — especialmente em setores intensivos em mão de obra como varejo, logística e hospitalidade.
Monitorar a regulamentação do contrato intermitente no Brasil e as decisões do TST sobre a matéria será decisivo. A “liberdade” vendida no discurso pode se transformar em insegurança jurídica e rotatividade alta na operação. O caso britânico não é um manual de como fazer; é um alerta do que evitar.
