Economia

O segredo que ninguém conta: A lição da França para o ajuste do Brasil

Gráfico de rendimento de títulos franceses superando 5% com bandeira da França e ícones de alerta fiscal para o Brasil
Juros franceses de 10 anos rompem 5% pela primeira vez desde 2002, sinalizando risco político para o Brasil.

Os juros dos títulos franceses de dez anos romperam 5% pela primeira vez desde 2002, e o prêmio sobre a Alemanha atingiu o maior nível desde a crise do euro. A França não perdeu o acesso ao mercado — mas começou a pagar caro pela paralisia política antes mesmo de o financiamento secar. Para o Brasil, a mensagem é direta: o custo da indecisão chega ao orçamento muito antes da crise aberta.

O sinal de alerta que veio de Paris

A dívida francesa caminha para 121,7% do PIB em 2027, com déficit projetado em 5%. Em 2027, o país precisará emitir 340 bilhões de euros em títulos longos num cenário de baixo crescimento e Parlamento fragmentado. Se os juros atuais persistirem, serão incorporados ao custo médio da dívida, travando o orçamento por anos. A restrição fiscal chegou pela porta da frente: o próprio orçamento.

O menu de ajustes: da força bruta à prevenção

A história recente oferece um catálogo de como países corrigem trajetórias insustentáveis. A Grécia, sem mercado em 2010, cortou 17 pontos do PIB no saldo primário em três anos; o PIB caiu 25% e o desemprego bateu 27%. Portugal, com assistência externa, ajustou 8,7 pontos entre 2010 e 2014, metade via receitas, e recuperou o acesso antes.

A Argentina de 2024 fez 5 pontos de ajuste em um ano, concentrado em despesas, virou superávit e desinflacionou rápido — mas a atividade caiu e salários/aposentadorias foram corroídos. O Reino Unido, em 2022, testou cortes de impostos sem lastro: a libra desabou, os juros dispararam, fundos de pensão quase quebraram e a primeira-ministra caiu em 49 dias. O fio comum? Quem espera o mercado fechar perde o controle do tamanho e da velocidade da correção.

O espelho sul-africano: o paralelo mais perigoso

A África do Sul, rebaixada a grau especulativo, escolheu outro caminho. Buscou superávits primários (1% do PIB em 2025/26, projetados a 1,7%) antes de perder o financiamento. A dívida estabilizou em 78,4%. O programa modera gastos correntes e eleva investimento em energia e logística, embora o serviço da dívida já supere saúde e educação básica. A lição: o ajuste gradual só existe para quem começa cedo.

Por que o tempo acabou para amadores

O ambiente global mudou. Juros soberanos e prêmios de prazo subiram nas economias avançadas; os spreads da Bélgica, Itália, Espanha e Grécia abriram junto com os da França. Nos emergentes, o FMI vê spreads comprimidos, mas vulneráveis a qualquer mudança de apetite por risco. A disputa pela poupança global está mais cara.

O mercado voltou a diferenciar riscos fiscais com velocidade. Quanto maior a dívida e mais curto o prazo médio, mais rápido o custo das novas emissões bate no orçamento. Juros mais altos exigem superávits maiores para estabilizar a dívida. Esperar não posterga o custo — ele o aumenta.

A conta de 3% do PIB e a armadilha da Selic

O Brasil não tem crise de financiamento externo, mas compete pela mesma poupança num mundo de capital caro, pagando um dos juros reais mais altos do planeta. Com parcela relevante da dívida atrelada à Selic, qualquer alta chega ao orçamento quase de imediato.

Um ajuste de 3% do PIB em cinco anos, focado na contenção do crescimento das despesas obrigatórias (sem cortes nominais), não se compara mecanicamente aos 17 pontos gregos ou aos 8,7 portugueses. A comparação correta é institucional: decidir agora, controlando o rol e a sequência das medidas, ou deixar que o custo de rolagem da dívida reduza esse espaço de escolha.

O que observar daqui para frente

Não existe tamanho de ajuste independente do tempo. A Grécia corrigiu tarde e forte; a África do Sul começou cedo e distribuiu o esforço. França e Reino Unido provam que nem países ricos escapam da disciplina da credibilidade. Num mundo onde o risco fiscal voltou a ter preço, a escolha decisiva não é entre rápido ou gradual. É entre comandar a correção enquanto se tem voto no Congresso — ou aceitar que as condições financeiras ditem a anatomia do ajuste, tirando do governo a caneta e deixando apenas a conta.