Economia

Mercado em alerta: o segredo por trás do próximo ministro da Fazenda

Ilustração de ministro da Fazenda brasileiro com gráficos de mercado e bandeiras do Brasil, representando incerteza fiscal
O próximo ministro da Fazenda herdará o desafio de acalmar o mercado em meio a promessas fiscais arriscadas de Lula e Bolsonaro.

O próximo presidente da República — seja Lula ou Flávio Bolsonaro — herdará a missão de nomear um ministro da Fazenda capaz de acalmar um mercado já cético. As promessas de campanha de ambos os lados inflaram o risco fiscal e tornaram a escolha mais decisiva do que nunca. Mas quem realmente tem condições de virar o jogo?

O rombo nas promessas que assusta investidores

Com a caneta na mão, o atual presidente estendeu subsídios a combustíveis, anulou dívidas de MEIs e acenou com um Pix de R$ 5.000 para empreendedores a partir de 2027. A lista segue: expansão do Pé-de-Meia para universitários e tarifa zero no transporte urbano nos fins de semana. Medidas que, somadas, pressionam o Orçamento sem fonte de financiamento clara.

Do outro lado, o senador que o mercado via como âncora do ajuste recuou. Flávio Bolsonaro prometeu manter ganhos reais para aposentados, rejeitou desvincular benefícios do salário mínimo e abraçou a tarifa zero. Cada gesto afasta o candidato de cortes estruturais que economistas consideram inevitáveis.

Resultado: a confiança dos agentes econômicos erosiona antes mesmo da posse. O anúncio do ministro, antes burocrático, virou peça de sinalização — e o momento da revelação pode ditar o câmbio e a curva de juros nos primeiros meses de governo.

Se Lula vencer: credibilidade em teste imediato

A reeleição do petista deve provocar reação negativa instantânea: alta do dólar e dos juros longos. O nome da Fazenda precisará entregar um “choque de credibilidade” nas primeiras semanas. No mandato atual, Lula patrocinou a regra que limitou a valorização do salário mínimo ao teto do arcabouço fiscal, mas também chamou superávit primário de “babaquice” — sinal trocado que o mercado não esqueceu.

Nos bastidores, a equipe do presidente ainda não dedicou tempo à transição. Ainda assim, quatro nomes circulam com força:

  • Gabriel Galípolo — presidente do BC, “menino de ouro” de Lula em 2022, visto pelo mercado como o melhor freio fiscal.
  • Dario Durigan — atual ministro, permanência incerta após o primeiro turno.
  • Camilo Santana (PT-CE) — ganhou espaço na coordenação de campanha, porta-voz frequente.
  • Renan Filho (MDB-AL) — avaliação positiva nos Transportes, recordista em concessões de infraestrutura.
  • Rafael Fonteles — governador reeleito do Piauí, ex-secretário de Fazenda estadual; aliados temem “queimá-lo” num posto de alto desgaste.

Se Flávio vencer: pressa e inquéritos no radar

Vitória do candidato do PL exigiria anúncio mais rápido do ministro, para conter a desconfiança gerada pelas promessas recentes. O comando da Receita Federal vira ponto sensível: o órgão toca investigações que envolvem o Banco Master, de Daniel Vorcaro — a quem Flávio pediu recursos para financiar um filme sobre o pai.

O senador é alvo de inquérito no STF sobre o filme “Dark Horse” e de pedido de investigação por lavagem de dinheiro envolvendo o advogado Willer Tomaz. A campanha nega irregularidades e afirma que os autos não viraram inquérito. No governo Jair Bolsonaro, a Receita sofreu ingerência para blindar Flávio no caso das “rachadinhas” — episódio que derrubou chefes do órgão e da corregedoria.

Os cotados do lado do PL

Roberto Campos Neto lidera as apostas. Ex-presidente do BC, tem aval de Tarcísio de Freitas e trânsito no mercado. Amigos dizem que ele só aceita se tiver autonomia para garantir a trajetória da dívida. Há quem veja a indicação como jogada de Tarcísio para 2030 — e ala da campanha que por isso mesmo se opõe.

Outros nomes na mesa:

  • Marcelo Kayath — ex-Credit Suisse, anfitrião de jantar com banqueiros, apoiado por Eduardo Bolsonaro.
  • Adolfo Sachsida — coordenador econômico da campanha, preferido de Jair Bolsonaro; minimizou as próprias chances a interlocutores.
  • Mansueto Almeida — ex-secretário do Tesouro, hoje no BTG; resistência da família Bolsonaro a André Esteves pesa contra.
  • Alexandre Bettamio — Bank of America.
  • Rogério Marinho (PL-RN) — curinga: quer presidência do Senado, mas pode ser deslocado para Fazenda ou Casa Civil.

O que observar daqui para frente

O segundo turno definirá não só o ocupante do Planalto, mas o grau de liberdade do próximo ministro da Fazenda. Quanto mais apertada a vitória, maior a tentação de manter promessas custosas — e menor o espaço para ajuste. A primeira sinalização concreta virá com o nome anunciado. Se vier acompanhado de compromisso público com metas de resultado primário e arcabouço fiscal, o mercado pode dar o benefício da dúvida. Se vier sem lastro, dólar e juros longos reagirão antes mesmo da posse. Para o empresário e o investidor, a regra é simples: acompanhe o anúncio, leia o discurso de posse e meça a autonomia real do escolhido. O resto é ruído.