A disputa pelo Palácio do Planalto deixa uma fatura de R$ 290 bilhões para o próximo presidente administrar a partir de 2027. O valor equivale a quase 3% do PIB e pode empurrar o deficit primário para níveis insustentáveis. A pergunta que fica: quem vai pagar a conta?
O pacote de bondades que ninguém consegue explicar
Nos últimos dias de campanha, os dois finalistas transformaram o segundo turno em leilão de benesses. De um lado, o atual presidente acionou medidas que somam R$ 290 bilhões em potenciais compromissos. Do outro, o desafiante apresentou uma lista de promessas sem detalhamento orçamentário, incluindo congelamento de dívidas, ressurreição de programas extintos e redução de tributos.
O Ministério do Planejamento estima que as medidas do lado governista gerem impacto de R$ 53,6 bilhões no Orçamento de 2027. O mercado financeiro projeta número bem maior: até R$ 82 bilhões. Já as propostas do adversário são uma incógnita — assessores econômicos foram proibidos de falar para não criar ruído.
O que está na mesa: promessas com preço conhecido e outras sem etiqueta
Do lado do desafiante, os anúncios mais recentes incluem:
- Congelamento de dívidas bancárias: até 6 meses para pessoas físicas, 1 ano para MPEs
- Recriação do Perse (isenção para eventos): custo estimado de R$ 25 bilhões/ano
- Pix de devolução de gastos ao consumidor
- Pedágio zero para motociclistas
- Atualização da tabela SUS e renegociação de dívidas de Santas Casas
- Manutenção e ampliação do Pé-de-Meia, Bolsa Família reajustado, salário mínimo com ganho real
- Fim do split payment da reforma tributária — o que pode reduzir arrecadação
Já o pacote do governo em exercício contempla Desenrola 3, Pé-de-Meia universitário, subvenção a combustíveis, tarifa zero de ônibus nos fins de semana e promessa de perdão a bares e restaurantes — esta última anunciada como resposta ao Perse, sem apresentar a conta.
Por que o mercado financeiro perdeu o sono
A XP Investimentos calcula necessidade de até R$ 83 bilhões em ajustes no Orçamento de 2027. O economista-chefe da Warren, Felipe Salto, projeta custo de R$ 43,6 bilhões só no primeiro ano e R$ 195,6 bilhões até 2030 considerando as medidas governistas. Ambos apontam para o mesmo gargalo: o teto de despesas não comporta as novas obrigações sem cortes drásticos em gastos discricionários ou aumento de receita.
Mas o efeito mais relevante aparece em outro setor.
A armadilha dos combustíveis e a herança da escala 6×1
Experiência recente ensina que retirar subsídios de combustíveis de uma vez é politicamente impossível. Em 2023, o governo atual precisou manter por meses a desoneração herdada da gestão anterior. Repetir o roteiro em 2027 pressiona o resultado primário em mais R$ 30 bilhões, segundo a XP.
Some-se a isso a pressão empresarial por compensação caso o fim da escala 6×1 avance no Congresso. A conta não fecha sem escolhas duras.
O diagnóstico de quem estuda produtividade
“O populismo fiscal é ecumênico nas eleições. Dar dinheiro para todo mundo é mais popular — para empresário, para a população. Quem não quer dinheiro?”, resume Silvia Matos, coordenadora do Observatório de Produtividade do IBRE-FGV. Para ela, a volta do Perse sinaliza um governo refém de setores organizados, enquanto juros altos no Brasil e no exterior tornam o ajuste ainda mais custoso.
Salto resume o pós-urnas: “Será preciso colocar a bola no chão e voltar às planilhas. O primeiro desafio é acertar o Orçamento de 2027.”
O que observar daqui para frente
Três variáveis definirão a trajetória fiscal nos primeiros 100 dias do novo mandato: a velocidade de desmonte das subvenções a combustíveis, a disposição política para vetar ou moderar promessas sem lastro orçamentário e a capacidade de articular medidas de receita no Congresso. O relatório de avaliação fiscal do terceiro bimestre, previsto para maio, será o primeiro teste real de credibilidade. Quem investe ou empreende no Brasil deve monitorar não apenas o discurso de posse, mas a composição da equipe econômica e o primeiro projeto de lei orçamentária enviado ao Legislativo.
