Economia

Low cost some no Brasil: só 3 estrangeiras e a conta não fecha

Avião de companhia aérea low cost no aeroporto brasileiro com passageiros embarcando
Mercado de baixo custo no Brasil encolhe para apenas três operadoras internacionais após saída da Flybondi

A argentina Flybondi encerrou suas operações no país e reduziu o mercado de baixo custo a três players internacionais. A demanda por voos bate recordes, mas o modelo que barateia a passagem segue sem decolar por aqui.

O baque da Flybondi e o vazio que ficou

Em agosto, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) registrou o último voo da companhia argentina. Nos 27 dias anteriores, 79% das rotas programadas haviam sido canceladas. A crise financeira da empresa — que demitiu a equipe de comunicação e tirou o site do ar — deixou um rastro de passagens não honradas nas rotas para Florianópolis, Maceió, Salvador e Rio de Janeiro.

O episódio não é isolado. Na última década, a alemã Condor e a norueguesa Norwegian também abandonaram o mercado brasileiro. O resultado é um setor que encolhe justamente quando o número de passageiros explode.

Quem sobrou para disputar o passageiro?

Hoje, a bandeira “low cost” no Brasil resume-se a três estrangeiras que operam apenas rotas internacionais de curta distância:

  • Sky Airline e JetSMART (chilenas);
  • Arajet (dominicana).

Elas conectam cidades brasileiras a destinos na Argentina, Chile, Peru, Uruguai e República Dominicana. Não há nenhuma low cost voando rotas domésticas nem atravessando o Atlântico.

Por que o Brasil repele companhias de baixo custo?

Enquanto o país transportou 129,6 milhões de passageiros em 2025 — alta de 9,4% —, o segmento de custo baixo minguou. Especialistas apontam um “Custo Brasil” estrutural: tributação pesada, infraestrutura aeroportuária onerosa e, principalmente, o preço do querosene de aviação (QAV).

Cerca de 40% do custo operacional de uma aérea no Brasil é combustível. A média global gira em torno de 30%. Em setembro, o litro do QAV custava R$ 5,66, salto de 54% em um ano. A tarifa média real, por sua vez, chegou a R$ 746,62 por trecho.

O entrave jurídico que ninguém comenta

Além da economia, a legislação trava o modelo. O conceito low cost exige separar o transporte dos serviços acessórios (bagagem, assento, alimentação, check-in presencial) para cobrar à parte. No Brasil, interpretações regulatórias e decisões judiciais frequentemente obrigam a inclusão desses itens na tarifa base, anulando a vantagem competitiva.

Para Adalberto Febeliano, especialista em aviação civil, “a empresa, para ser low cost, tem que ter filosofias low cost”. Sem a liberdade de cobrar pelo check-in no balcão ou pela marcação de assento, a equação financeira não fecha.

O que observar daqui para frente

A expansão desse nicho depende da estabilidade cambial — a maior parte dos custos é dolarizada — e de uma reforma tributária que desonere o QAV. Sem isso, o passageiro brasileiro continuará refém de tarifas altas em um mercado que cresce, mas não se diversifica. O próximo sinal virá se alguma das três sobreviventes anunciar novas bases ou, ao contrário, reduzir frequências.