Flávio Bolsonaro (PL) depositou seu voto neste domingo (25) na zona norte do Rio de Janeiro, no segundo turno da disputa presidencial. A fala do candidato após deixar a urna aponta para um diagnóstico de retrocesso econômico e insegurança que, se confirmado nas urnas, redesenha o cenário de risco-país para o próximo mandato.
O candidato chegou às 8h20 à Escola Municipal Barão Homem de Melo, em Vila Isabel, acompanhado da esposa Fernanda, da mãe Rogéria e do governador fluminense Douglas Ruas. Do lado de fora, a polarização era visível: grupos rivais trocavam gritos de ordem, com eleitores do presidente Lula citando o caso Ana Clara e suspeitas de ligação com milícias, enquanto apoiadores do PL entoavam palavras contra o atual chefe do Executivo.
O discurso que interessa ao mercado
Em declaração breve à imprensa, Flávio resumiu sua plataforma em dois eixos centrais: violência pública e endividamento das famílias. “A vida de todo mundo piorou”, afirmou, elencando medo de assaltos, geladeira vazia e contas atrasadas. Para o investidor, a tradução é direta: insegurança jurídica e perda de poder de compra comprimem consumo e investimento privado.
O candidato evitou detalhar propostas concretas de política fiscal ou monetária, mas o diagnóstico aponta para uma agenda de endurecimento penal e revisão de programas sociais — vetores que historicamente afetam a curva de juros e o câmbio.
Impacto direto no ambiente de negócios
- Segurança pública: promessa de endurecimento pode reduzir custos de segurança privada para varejo e logística, mas exige aprovação legislativa e execução orçamentária.
- Endividamento das famílias: com inadimplência pessoa física acima de 45% (dado Serasa, setembro/2026), qualquer medida de alívio — renegociação compulsória ou ampliação de crédito direcionado — mexe na alavancagem bancária.
- Relação Executivo-Legislativo: governabilidade dependerá da composição do Congresso eleita em outubro; maioria fragmentada trava reformas estruturais.
O que os números do dia revelam
O TSE registrou 32 ocorrências eleitorais até o meio-dia, patamar considerado baixo para segundo turno. A abstenção, porém, é o termômetro silencioso: no primeiro turno, atingiu 21,3%, maior desde 1998. Cada ponto percentual a mais equivale a cerca de 1,5 milhão de eleitores que não comparecem — sinal de desengajamento que costuma antecipar instabilidade política nos primeiros 100 dias de governo.
No Rio, a presença do governador Douglas Ruas ao lado do candidato sinaliza alinhamento estadual-federal, o que pode acelerar liberação de recursos para infraestrutura (Porto de Itaguaí, Arco Metropolitano) e atrair parcerias privadas em saneamento e mobilidade.
Cenários para a abertura de segunda-feira
Se o resultado confirmar a vitória de Flávio, o mercado precifica na abertura: alta do dólar acima de R$ 5,30, curva de juros longa pressionada (DI jan/29 testando 12,5%) e Ibovespa volátil entre 125-130 mil pontos. Vitória de Lula tende a comprimir prêmios de risco no curto prazo, mas mantém dúvidas sobre arcabouço fiscal 2027.
O BC já sinalizou manutenção da Selic em 13,75% na próxima reunião (5/11), independentemente do vencedor. A variável decisiva será a sinalização do novo ministro da Fazenda — nome que deve ser anunciado na primeira semana de novembro.
O que observar daqui para frente
Três indicadores de curtíssimo prazo ditam o ritmo dos ativos brasileiros nas próximas semanas: (1) composição da equipe econômica, (2) tramitação da PEC da Transição ou equivalente no Congresso lame-duck, e (3) primeiros decretos de segurança pública e crédito. Empresários com exposição a varejo, construção e serviços financeiros devem revisar cenários de fluxo de caixa até o dia 10 de novembro, quando a transição passa a operar com dados oficiais de arrecadação e endividamento público.
