Uma pesquisa recente revelou um racha profundo no que os brasileiros entendem por “melhorar de vida”: 62,3% dos eleitores de Flávio Bolsonaro e 33,5% dos eleitores de Lula apontam o próprio negócio como a resposta. Do outro lado, 30,2% e 65,4%, respectivamente, ainda veem a carteira assinada como o caminho. O dado expõe uma fratura: para metade do país, o contrato formal deixou de ser objeto de desejo.
Essa mudança de preferência não é cultural — é estrutural. Ela espelha quatro décadas de estagnação da produtividade que tornaram o emprego formal menos atrativo e o empreendedorismo de subsistência a única rota visível para milhões.
O abismo da produtividade em números
Entre 1985 e 2025, a produtividade por hora trabalhada no Brasil avançou 0,8% ao ano. Nos Estados Unidos, o ritmo foi de 2% no mesmo período. Em termos acumulados: 40% de crescimento aqui contra 123% lá fora. Mesmo excluindo a década perdida da hiperinflação (1985-1994), o avanço foi de apenas 31% em trinta anos — 0,9% ao ano.
O resultado direto: salários reais que mal acompanham a inflação, carreiras sem progressão clara e a sensação de que “trabalhar para os outros” não compensa.
Duas raízes, um mesmo sintoma
Economistas identificam dois determinantes próximos para essa paralisia. O primeiro está na sala de aula: metade da diferença de produtividade entre países ricos e pobres é explicada por habilidades cognitivas e socioemocionais formadas no ensino fundamental. No Brasil, 90% dos alunos apontam a indisciplina nas escolas públicas como o principal obstáculo ao aprendizado.
O segundo fator é institucional. Boas leis tributárias, trabalhistas e um Judiciário funcional deveriam direcionar capital e trabalho para as empresas mais eficientes, permitindo que as menos produtivas saiam de cena. O que ocorre é o inverso: regimes especiais — MEI, Simples, Lucro Presumido — subsidiam a permanência de negócios de baixa eficiência.
O ciclo que se alimenta sozinho
Em economias dinâmicas, a produtividade do trabalhador cresce ao longo da vida: experiência e conhecimento se acumulam num ambiente onde a alocação de recursos funciona. No Brasil, a má alocação generalizada trava esse ciclo. O empreendedorismo individual surge como refúgio, não como escolha estratégica — e sua baixa produtividade média reforça a estagnação.
A resposta política tem sido expandir os subsídios ao ineficiente, atendendo à demanda imediata, mas agravando a armadilha estrutural.
O que observar nos próximos meses
- Reforma tributária na prática: a transição dos regimes especiais para o novo IVA dual definirá se o incentivo à informalidade produtiva será corrigido ou mantido.
- Indicadores de qualidade educacional: o IDEB e o SAEB de 2025 mostrarão se há reversão na curva de aprendizado do fundamental.
- Fluxo de formalização: dados do CAGED e do Portal do Empreendedor revelarão se a preferência declarada por “negócio próprio” se traduz em MEIs ativos ou em desistência silenciosa.
Enquanto a produtividade não voltar a crescer acima de 1,5% ao ano de forma sustentada, a carteira assinada continuará perdendo espaço no imaginário — e no bolso — do trabalhador brasileiro. A equação não fecha por vontade política; fecha por matemática.
