Economia

O segredo que ninguém conta: por que presidentes não passam de 38% de aprovação

Gráfico de aprovação presidencial mostra teto de 38% para Lula e Bolsonaro no Datafolha
O teto de aprovação de 38% que nem Lula nem Bolsonaro conseguiram romper, segundo Datafolha.

Nem Lula 3 nem Bolsonaro conseguiram romper a barreira dos 38% de “ótimo ou bom” no Datafolha. O teto é real e afeta diretamente a governabilidade que investidores e empresários monitoram.

Diferente de antecessores que chegaram a picos maiores antes de cair, a dupla atual carrega uma rejeição crônica — um terço do eleitorado ou mais classifica a gestão como “ruim ou péssimo” desde o início. O que explica esse fenômeno inédito?

O colapso da lua de mel presidencial

FHC 1, Lula 1 e 2, e Dilma 1 desfrutaram de aprovações superiores em seus primeiros mandatos. Suas quedas vieram depois, muitas vezes ligadas a choques pontuais: Plano Real, mensalão, pedaladas fiscais. Já a insatisfação com Lula 3 e Bolsonaro não nasce de um evento único.

Ela brota de uma década de estagnação (2014-2023) que deixou sequelas concretas: renda real comprimida, endividamento das famílias, precarização do trabalho e a sensação de que a mobilidade social travou. O eleitor não pune um erro — pune a ausência de perspectiva.

O fator algoritmos e a polarização rentável

Redes sociais transformaram conflito em modelo de negócio. Discursos moderados não viralizam; a indignação, sim. Isso cria incentivos perversos: governar para a bolha, não para a maioria. O resultado é um presidente que nasce fraco, refém de sua base radical e incapaz de ampliar apoios.

O fenômeno não é só brasileiro. Democracias ocidentais enfrentam ciclos curtos de popularidade e dificuldade crescente de reeleição. O Brasil apenas radicalizou a regra.

2026 e o abismo de 2027: o que os números projetam

O próximo pleito tende a replicar a divisão extrema. Quem vencer assume com aprovação limitada, Congresso fragmentado e uma economia sob pressão. Para 2027, analistas apontam:

  • Risco real de recessão técnica
  • Salários, emprego e benefícios sociais contidos
  • Disputa feroz por recursos orçamentários escassos

Um eventual Lula 4 estaria politicamente encurralado. Um Bolsonaro 2 tentaria, desde o dia 1, reverter investigações e anistiar aliados. Em ambos os cenários, promessas de campanha não cumpridas aceleram a erosão do capital político.

O regime real: semipresidencialismo de chantagem

Sem popularidade nem base parlamentar própria, presidentes recentes ou caíram (Collor, Dilma) ou entregaram o comando ao Centrão (Temer, Bolsonaro). A ascensão definitiva desse bloco em 2014 consolidou um sistema onde o Executivo governa sob chantagem permanente — ou cede emendas e cargos, ou paralisa.

Chamem de semipresidencialismo de fato. Na prática, é um jogo de soma zero onde a governabilidade se compra a cada votação.

Cenários de ruptura: o que pode mudar o tabuleiro

Três variáveis alterariam a dinâmica, mas nenhuma é imediata:

  • Grande aliança de centro-esquerda contra projeto autoritário — exige lideranças novas e programa econômico crível
  • Erosão institucional pela extrema direita — muda as regras do jogo, não os jogadores
  • Sucesso econômico extraordinário — fora do horizonte dos próximos anos, mesmo com planos conservadores

Reorganizar forças políticas e alianças sociais leva tempo. Exige coalizões que transcendam a polarização algorítmica — algo que nenhum ator atual demonstrou capacidade de construir.

O que observar daqui para frente

O próximo presidente assumirá com teto de popularidade baixo, economia difícil e Congresso que cobra a fatura antecipadamente. A variável decisiva não é quem senta na cadeira, mas como governo e Parlamento reagirão à inevitável crise de legitimidade. Para quem aloca capital ou planeja negócios no Brasil, o sinal claro: aposte em cenários de instabilidade institucional prolongada, não em choques de gestão. A refundação do pacto político-econômico virá — se vier — por pressão de baixo para cima, não por decreto presidencial.