Economia

Flávio veta privatização da Petrobras, mas mercado aposta em venda de ativos…

Flávio Bolsonaro discursa com logo da Petrobras ao fundo, simbolizando veto à privatização mas expectativa de venda de ativos
Flávio Bolsonaro veta privatização da Petrobras, mas mercado aposta em continuidade de desinvestimentos.

A campanha de Flávio Bolsonaro (PL) fechou as portas para a privatização da Petrobras, mas analistas e investidores seguem céticos: a expectativa é que o modelo de desinvestimentos e enxugamento da estatal, iniciado no governo anterior, retome força caso o candidato vença a eleição.

O plano de governo registrado no TSE não menciona a petroleira. A assessoria econômica evita o tema e a imprensa não obteve resposta para entrevistas. O silêncio, porém, contrasta com declarações recentes de nomes-chave da equipe.

O que dizem os estrategistas da campanha

Adolfo Sachsida, ex-ministro de Minas e Energia e hoje um dos principais assessores econômicos de Flávio, foi taxativo em vídeo divulgado nas redes: “Não existirão privatizações de empresas. Nenhuma dessas empresas será tocada”. A fala cita nominalmente Banco do Brasil, Caixa e Petrobras.

Dias antes, o tom era outro. Adriano Pires, coordenador da área de energia e cotado para comandar a Petrobras ou o MME, defendeu em entrevista ao SBT News a capitalização da estatal nos moldes da Eletrobras — redução da participação da União a posição minoritária, sem poder de veto. “Pode ter discussão de fazer uma capitalização da Petrobras. Mas isso não está no plano de governo, quem vai decidir é o Congresso Nacional”, ponderou.

Pires é defensor histórico da privatização. Chegou a ser indicado à presidência da petroleira em 2022, mas desistiu após questionamentos por conflito de interesse. Nas últimas semanas, recusou entrevistas à imprensa.

Ausência de diretrizes para preços e refino

O programa de governo não detalha a política de preços dos combustíveis. Promete redução de impostos, sem especificar quais nem como compensar a arrecadação. No governo Jair Bolsonaro, a estatal ganhou autonomia para seguir o mercado internacional, mas sofreu intervenções às vésperas da eleição de 2022, quando a guerra na Ucrânia disparou as cotações.

Hoje, a Petrobras pratica preços abaixo da paridade internacional, argumentando que a alta do petróleo garante margem para segurar os valores nas refinarias. Executivos do setor que se reuniram com a equipe de Flávio relatam que o tema quase não foi discutido: “Ouviram mais do que falaram”, resume uma fonte.

O legado de desinvestimentos que fica no radar

Entre 2019 e 2022, a estatal vendeu ativos considerados não estratégicos:

  • Campos de petróleo de menor porte e gasodutos
  • Participação remanescente na BR Distribuidora (hoje Vibra Energia)
  • Liquigás, distribuidora de GLP
  • Quatro das oito refinarias colocadas à venda — incluindo Mataripe (BA), a segunda maior do país

O plano de Flávio cita refinarias apenas para “estimular a modernização do refino rumo ao aproveitamento do petróleo nacional”, sem definir se a atribuição seria da Petrobras ou do setor privado. O mesmo vago aparece nos fertilizantes: “favorecer a produção nacional” para reduzir dependência externa, sem indicar origem dos recursos.

O que o mercado precifica hoje

Gestores de fundos e analistas de óleo e gás trabalham com dois cenários base. No primeiro, a retórica antiprivatização se mantém, mas o programa de desinvestimentos avança via venda de ativos “não core” — refinarias remanescentes, terminais, participações minoritárias. No segundo, a capitalização estilo Eletrobras ganha tração no Congresso, especialmente se houver base aliada sólida.

Nenhum dos dois exige mudança na Constituição. Ambos dependem, porém, de vontade política e de quem ocupará a presidência da Petrobras e o MME.

O que observar nas próximas semanas

A definição dos nomes para MME e comando da Petrobras será o termômetro mais confiável. Enquanto isso, três sinais merecem atenção: (1) eventuais alterações no estatuto social da empresa; (2) movimentação no Conselho de Administração; (3) declarações de lideranças do Centrão sobre capitalização. O silêncio da campanha, por ora, fala mais alto que as negativas oficiais.