Tecnologia

Computador quântico na PB: montagem começa em novembro após atraso

Pesquisadores montando componentes de computador quântico em laboratório na Paraíba
Peças para os primeiros computadores quânticos da América Latina chegam à PB em novembro

As peças que faltam para montar os dois primeiros computadores quânticos da América Latina chegam à Paraíba em 17 de novembro, com desembaraço aduaneiro iniciado no dia 5. O cronograma original previa conclusão em outubro, mas a nova meta é entregar parte da estrutura ainda em dezembro.

O anúncio partiu do secretário de Ciência e Tecnologia, Cláudio Furtado, dias depois de o presidente Lula citar o projeto em debate televisionado. O investimento inicial gira em torno de R$ 150 milhões.

O que muda com o novo cronograma

Atrasos em importações de alta complexidade não são raros, mas a janela entre novembro e dezembro é apertada. O centro que receberá os equipamentos — o Ciquanta, na Estação das Artes, em João Pessoa — precisa estar pronto para condições extremas: blindagem eletromagnética, estabilidade de temperatura e refrigeração a 10 milikelvin (perto de -273 °C).

Segundo Furtado, a parte lógica e elétrica do prédio será finalizada ainda esta semana. Os sistemas de ar-condicionado já estão no local. Tudo precisa convergir para que a montagem comece assim que as caixas forem abertas.

Dois equipamentos, capacidades diferentes

  • 20 qubits: voltado a pesquisa inicial e validação de algoritmos
  • 100 qubits: foco em problemas de otimização, criptografia e simulação molecular

A tecnologia usa qubits — unidades que, diferentemente dos bits clássicos, exploram superposição e emaranhamento quântico. Não significa velocidade superior em qualquer tarefa, mas abre caminhos para cálculos inviáveis em máquinas convencionais.

Refrigeração: o gargalo invisível

Manter chips a 10 milikelvin exige hélio-3 e hélio-4 em sistema de diluição, com redundância para evitar flutuações. Uma falha térmica de milésimos de grau pode derrubar a coerência dos qubits e paralisar experimentos por dias.

Essa infraestrutura criogênica é um dos maiores custos ocultos do projeto e um dos principais vetores de transferência de tecnologia previstos no acordo com a empresa chinesa CETC.

Acesso restrito na largada, expansão depois

Na fase inicial, apenas pesquisadores da UFPB, UFCG e IFPB terão acesso aos equipamentos. O plano inclui capacitação em criogenia, sensores quânticos e sistemas operacionais proprietários — conhecimento que, hoje, praticamente não existe no país.

A aposta é formar uma base técnica capaz de, no médio prazo, desenvolver hardware nacional e reduzir dependência externa.

O que observar nos próximos 30 dias

Três marcos definem se o cronograma se sustenta: liberação aduaneira sem imprevistos a partir de 5 de novembro, chegada física das peças no dia 17 e conclusão da infraestrutura do Ciquanta até 30 de novembro. Qualquer deslize empurra a estreia para 2025.

Para quem acompanha o ecossistema de inovação, o sinal mais relevante não é a inauguração em si, mas a capacidade de manter esses equipamentos operando de forma contínua — algo que nenhum país da região demonstrou até hoje.