Justiça

STF pode derrubar regra que trava transporte de indígenas para votar: entenda o risco de exclusão

Indígenas em barco rumo a local de votação na Amazônia, com risco de exclusão por regra do TSE
Transporte de eleitores indígenas pode ser barrado por exigência de autorização judicial do TSE.

O procurador-geral da República, Paulo Gonet, acionou o Supremo Tribunal Federal (STF) neste sábado (24) para tentar suspender uma determinação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que exige autorização judicial prévia para o transporte de eleitores indígenas no segundo turno. A medida, assinada na véspera da votação, pode impedir que milhares de pessoas cheguem às urnas a tempo.

A decisão partiu do presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, na sexta-feira (23), às 20h06 — menos de 48 horas antes do pleito. O ato administrativo obriga a Funai, a Secretaria de Saúde Indígena (Sesai) e o Ministério dos Povos Indígenas a solicitarem aval individualizado a cada juiz eleitoral responsável pelas zonas onde ocorre o deslocamento.

O que a regra exige na prática

Para cada operação de transporte, os órgãos precisam informar trajetos, horários e pontos de embarque. O juiz eleitoral analisa, aprova e comunica o Ministério Público Eleitoral antes da partida. Em regiões onde o acesso se dá por rios e exige horas de barco, a logística começa no sábado.

Segundo a PGR, o prazo é inviável. Cada juízo com eleitorado indígena teria que receber a orientação, processar os pedidos, aprovar cada rota e notificar o MP — tudo em menos de dois dias úteis.

  • Órgãos afetados: Funai, Sesai, Ministério dos Povos Indígenas
  • Prazo para cumprimento: menos de 48 horas
  • Modalidades de transporte: fluvial, terrestre e aéreo em áreas de difícil acesso

Por que a PGR vê “exclusão seletiva”

No pedido ao STF, Gonet argumenta que a exigência transfere o ônus da distância geográfica para o eleitor mais vulnerável. “Onde a seção fica a horas de barco, a exigência de aprovação formal individualizada em menos de dois dias equivale, na prática, à ausência de transporte”, escreveu.

A expressão “exclusão seletiva” aparece no documento para descrever o efeito prático: comunidades isoladas ficariam sem meio de chegar às seções, enquanto eleitores em áreas urbanas não enfrentam barreiras equivalentes.

O que está em jogo no domingo

O segundo turno define presidência e governos estaduais em 12 unidades da federação. Dados do TSE mostram que há mais de 1,2 milhão de eleitores aptos em terras indígenas homologadas ou em processo de regularização. A abstenção histórica nesse grupo supera a média nacional em até 15 pontos percentuais.

Se a regra valer, a estimativa extraoficial de lideranças indigenistas é de que dezenas de milhares de votos deixem de ser depositados apenas por falta de logística autorizada a tempo.

Próximos passos e o que observar

O relator no STF deve analisar o pedido em regime de urgência ainda neste sábado. Há dois cenários possíveis: a suspensão imediata da exigência, mantendo as operações já planejadas, ou a manutenção da regra, forçando uma corrida contra o relógio nos cartórios eleitorais.

Para quem acompanha o processo eleitoral, o indicador a monitorar é a taxa de comparecimento nas seções localizadas em territórios indígenas nas primeiras horas de votação. Uma queda brusca em relação ao primeiro turno sinalizará o impacto real da medida — e o tamanho do desafio para a legitimidade do pleito.