Analistas políticos usam os dois anos do segundo mandato de Donald Trump como roteiro provável para uma eventual presidência de Flávio Bolsonaro. A transição do improviso para a máquina lealista é o fio condutor. Mas o diabo mora nos detalhes institucionais brasileiros.
Em 2016, Trump chegou à Casa Branca sem equipe e sem conhecimento da máquina pública. O resultado foi um governo contido por “adultos na sala” que travavam ordens consideradas perigosas. Jair Bolsonaro repetiu o padrão em 2018: loteou o poder entre militares e indicados de Olavo de Carvalho, sem plano de gestão.
A virada do “amadorismo” para a engenharia de poder
O retorno de Trump em 2024 mudou tudo. Ele trouxe um plano desenhado por leais que sabem quais leis mudar, quais regras burlar sem punição e quais instituições dominar ou extinguir. A historiadora Anne Applebaum, da The Atlantic, traça paralelos diretos com o modelo de Viktor Orbán na Hungria — referência declarada de Eduardo Bolsonaro.
Na prática, isso significou o desmantelamento da USAID (ajuda internacional) e “faxinas” nos Departamentos de Educação, Justiça e Estado. No Brasil, Flávio acena com o corte de cerca de dez ministérios como peça central do “tesouraço” de R$ 250 bilhões no Orçamento.
O choque de gestão: Musk, DOGE e a realidade dos números
A obsessão por eficiência levou Elon Musk a comandar o Departamento de Eficiência Governamental (DOGE). A meta era cortar US$ 2 trilhões ao ano. O resultado oficial, porém, frustrou:
- Meta: US$ 2 trilhões de economia anual.
- Economia declarada pelo órgão: US$ 215 bilhões (cenário otimista).
- Custos colaterais (processos, indenizações, perda de produtividade): US$ 135 bilhões nos primeiros meses.
- Saldo líquido real: ~US$ 80 bilhões (apenas 4% da meta).
Musk admitiu em dezembro que sua atuação foi apenas “relativamente bem-sucedida” e que não repetiria a dose. O aviso serve para o plano brasileiro: cortes lineares em pessoal geram passivos judiciais e paralisia administrativa que corroem a economia nominal.
A “lista de inimigos” e o controle do aparelho de Estado
Além do corte de gastos, a máquina trumpista promoveu expurgos baseados em alinhamento político. Unidades de investigação que atuaram contra o presidente foram desmontadas. No Brasil, o sinal já foi dado: Eduardo Bolsonaro afirma ter uma lista de diplomatas e servidores que “sabotaram” o governo anterior e promete que “não se repetirá”.
Servidores do Itamaraty e da Polícia Federal relatam temor de perseguição e revanchismo. A fala de Eduardo sobre a saída forçada do ministro Alexandre de Moraes do STF — relator da condenação de Jair Bolsonaro a mais de 27 anos — eleva a temperatura para um choque institucional direto.
Anistia, narrativa e o “Dia Um” de 200 decretos
A reescrita da história é outro ponto de convergência. Trump perdoou quase 1.600 envolvidos no 6 de janeiro no primeiro dia, incluindo agressores de policiais. Se o Congresso não aprovar a anistia aos cerca de 2 mil envolvidos no 8 de janeiro — onde estão Jair e Eduardo —, caberá a Flávio assinar o indulto na posse, em 5 de janeiro.
A posse, aliás, promete ser um espelho da americana. Trump assinou 26 decretos no primeiro dia (recorde histórico), saindo do Acordo de Paris e da OMS. A equipe de Flávio teria pelo menos 200 textos prontos para revogar atos do governo anterior nas primeiras horas.
Onde a analogia quebra: o “Bolsonaro vacinado” e o Centrão
Carlos Gustavo Poggio, do Berea College, destaca diferenças vitais. Trump governa hoje com Congresso alinhado e Suprema Corte favorável. Flávio herdaria um Senado e uma Câmara onde o Centrão dita o ritmo — e já sinaliza resistência à anistia legislativa.
Além disso, Flávio se vende como um “bolsonaro vacinado”, mais moderado e gestor. Trump nunca fez esse aceno; radicalizou. A negociação com Arthur Lira e Rodrigo Pacheco será o teste de fogo imediato: sem maioria própria, o “tesouraço” e os decretos dependem de articulação, não apenas de vontade.
O que observar daqui para frente
Três variáveis definirão se o “spoiler” americano se confirma no Planalto: a capacidade do Centrão de bloquear ou diluir a pauta de costumes e anistia; a reação do STF a eventuais tentativas de expurgo na PF e no Itamaraty; e a viabilidade fiscal real do corte de R$ 250 bilhões sem paralisar a máquina. O roteiro está escrito, mas o elenco de apoio no Brasil é bem diferente do de Washington.
