Ciência

O segredo por trás do picolé que faz a boca formigar e virou febre na Amazônia

Picolé artesanal "pancolé" de plantas amazônicas (PANCs) na vitrine de sorveteria em Rio Branco, Acre
O "pancolé" transforma plantas alimentícias não convencionais da Amazônia em sobremesas inovadoras.

Uma sorveteria familiar em Rio Branco está transformando plantas esquecidas da floresta em sobremesas que desafiam o paladar — e a ciência. O “pancolé” nasceu da união entre pesquisadores da Ufac e a cozinha de Irenice Bertulino, mas o impacto vai muito além do balcão de vendas. O que começou como experimento acadêmico hoje move uma cadeia que une biodiversidade, cultura e negócios.

Da bancada do laboratório para a vitrine

O projeto nasceu no grupo de estudos Pancs da Universidade Federal do Acre, coordenado pela vice-reitora Almecina Balbino e pela doutora Marilene Santos. A nutricionista Bruna Oliveira, uma das idealizadoras, percebeu que o conhecimento científico sobre Plantas Alimentícias Não Convencionais não chegava à mesa do consumidor. A parceria com a sorveteria da mãe resolveu o último quilômetro: a escala.

Foram meses de testes para domar ingredientes rebeldes. O jambu, estrela do cardápio, provoca formigamento intenso na língua — sensação que assusta quem não conhece. A vinagreira-roxa traz acidez marcante. O equilíbrio veio em combinações como jambu com doce de leite e vinagreira com frutas vermelhas.

Sabores que você não encontra em outro lugar

  • Jambu + doce de leite — o clássico que apresentou a planta ao grande público
  • Vinagreira-roxa + frutas vermelhas — acidez equilibrada com doçura natural
  • Cupuaçu + espinafre da Amazônia — cremosidade com nota herbácea
  • Caldo de cana + hortelã e espinafre — refrescância pura
  • Manga + gengibre e begônia — toque floral surpreendente
  • Suco verde com Pancs — o mais vendido, segundo a empresária

O efeito nos pequenos negócios

Cada picolé sai a partir de R$ 4, preço acessível que virou porta de entrada para a curiosidade. Irenice relata que crianças — público notoriamente resistente a vegetais — aprovam os sabores sem saber o que estão comendo. A descoberta vem depois, e com ela a quebra de preconceito alimentar.

Mas o efeito mais relevante aparece em outro setor. A demanda por matéria-prima criou rota de compra direta com agricultores familiares que cultivam essas espécies em sistemas agroflorestais. Plantas antes subvalorizadas ganham cotação de mercado.

Por que isso pode mudar a bioeconomia regional

O Inova Amazônia Summit 2026, realizado pelo Sebrae em setembro, colocou o produto no radar de investidores e formuladores de política pública. A lógica é simples: se uma sorveteria artesanal consegue escalar receitas com Pancs, a indústria de alimentos da região tem ativo inexplorado nas mãos.

Há ainda o resgate cultural. Ora-pro-nóbis, capim-santo e espinafre da Amazônia compunham a dieta de gerações anteriores, mas perderam espaço para ultraprocessados. O picolé funciona como vetor de memória — quem prova, pergunta, e a conversa volta para a cozinha da avó.

O que observar daqui para frente

O grupo da Ufac estuda patentes para formulações e processos de estabilização das propriedades bioativas no congelamento. Se bem-sucedido, o modelo pode ser licenciado para outras regiões amazônicas, adaptando espécies locais. Para o empresário atento, o sinal é claro: biodiversidade bem contada vira produto premium. A próxima safra de inovação não virá do laboratório isolado — sairá da parceria entre quem pesquisa e quem sabe vender.