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Dinheiro romeno, IA e anúncios invisíveis: a fábrica de votos no Facebook

Ilustração de rede no Facebook com anúncios políticos ocultos, moeda romena e ícones de IA, investigação BBC eleição sérvia
BBC expõe fábrica de votos no Facebook: 56 páginas, dinheiro romeno e IA manipulando eleição sérvia.

Uma investigação da BBC expôs uma rede de 56 páginas no Facebook que injetou anúncios políticos não declarados na eleição sérvia, todos pagos em moeda romena e turbinados por inteligência artificial. A Meta removeu dezenas de peças por violarem regras de transparência, mas o rastro financeiro aponta para uma operação sofisticada de interferência estrangeira. O caso acende um alerta vermelho para investidores e reguladores sobre a real capacidade de fiscalização das grandes plataformas.

O esquema: páginas fantasmas, dinheiro estrangeiro e alcance pago

Entre meados de setembro e outubro, ao menos 90 anúncios circularam nas plataformas da Meta tendo como alvo o movimento estudantil de oposição na Sérvia. Nenhum deles informava o financiador, exigência básica da política da empresa para conteúdo político. A descoberta crucial veio pela Biblioteca de Anúncios: todos os pagamentos somaram 29.437 leu romeno (cerca de R$ 30 mil), e três anúncios tiveram a empresa romena Bmobile SRL como pagadora declarada.

As páginas foram criadas em massa nos dias 9 e 10 de setembro, coincidindo com a convocação do pleito. Nomes como “Perfume do Quintal da Vovó” e “Assuntos para o Café” mascaravam a natureza política. Fotos de perfil geradas por IA e poucos seguidores orgânicos não impediram que vídeos ultrapassassem milhões de visualizações — o segredo era o impulsionamento pago.

Por que isso importa para o mercado e para a regulação

A legislação sérvia proíbe recursos estrangeiros em propaganda eleitoral. Se confirmado o financiamento externo, configura-se violação direta da lei de financiamento de atividades políticas, alterada em junho de 2026. Para a Meta, o episódio expõe uma falha sistêmica: o processo de autorização para anunciantes políticos falhou em barrar contas que nem sequer se autodeclararam como tais.

O Comitê de Supervisão da própria Meta já classificou como “falhas recorrentes” a aplicação inconsistente de padrões de transparência. Para acionistas, isso sinaliza risco regulatório crescente, especialmente sob o Regulamento de Serviços Digitais (DSA) na União Europeia, que prevê multas de até 6% da receita global por descumprimento sistemático.

A engenharia de desinformação: apresentadores alugues e deepfakes baratos

Os vídeos seguiam um padrão industrial: tela dividida, teleprompter visível, apresentadores com microfones de lapela diante de fundos brancos. A BBC identificou três deles. Um era vereador na Romênia filiado ao partido AUR; outros dois eram animadores infantis de Bucareste que negaram autorização de uso de imagem.

O conteúdo misturava acusações sem prova contra opositores — como a montagem do reitor Vladan Đokić em uma praia brasileira cercado de dinheiro — com ataques identitários, como a fé muçulmana da candidata Sanela Ramadanović. A narração robótica e a troca de vozes sobre o mesmo rosto indicam uso de ferramentas de síntese de áudio por IA para escalar a produção a baixo custo.

Os números que a Meta não esconde (depois que apaga)

  • 56 páginas identificadas, criadas em 48h após convocação da eleição.
  • 90+ anúncios veiculados entre 15/09 e 15/10.
  • 47 removidos pela Meta por falta de rótulo político.
  • 29.437 leu (≈ R$ 30 mil) gastos confirmados até 16/10.
  • 800+ vídeos curtos publicados organicamente pelas mesmas páginas.
  • 3 anúncios com pagadora declarada: Bmobile SRL (Romênia).

O vazio dos “terceiros” e a omissão da Agência Anticorrupção

Desde 2026, a Sérvia exige que páginas sem vínculo partidário (“terceiros”) se registrem na Agência Anticorrupção se gastarem acima de € 300 (R$ 1,6 mil) em campanhas online. A BBC encontrou ao menos quatro páginas acima desse teto. Nenhuma estava registrada. A Agência confirmou ter aberto duas investigações baseadas em denúncias, mas não detalhou os alvos.

Enquanto isso, os partidos oficiais declararam gastos legítimos na Meta: o governista SNS investiu € 105 mil (R$ 580 mil) e a oposição “Estudantes Vencerão” aplicou € 122 mil (R$ 680 mil). A assimetria é clara: a transparência vale para quem se expõe; a opacidade protege quem ataca nas sombras.

Conexão romena: do marketing digital ao gabinete presidencial sérvio

Registros romenos mostram que a Bmobile SRL, fundada em 2005 em Craiova, pertence a Andrei Bușe. A empresa gerenciou a campanha digital do ex-premiê Victor Ponta na eleição presidencial romena de 2025, recebendo cerca de € 960 mil (R$ 5,3 milhões). Ponta, conselheiro honorário do presidente sérvio Aleksandar Vučić desde 2016 e cidadão sérvio desde 2018, esteve em Belgrado em 2025 em encontro com Donald Trump Jr. A proximidade geopolítica e empresarial desenha um corredor de influência que atravessa a moderação de conteúdo da Meta.

O que observar daqui para frente

Três frentes merecem monitoramento contínuo: (1) o desfecho das investigações da Agência Anticorrupção sérvia — sanções a “terceiros” não registrados podem criar precedentes jurídicos; (2) a resposta da Meta ao Comitê de Supervisão e ao TSE brasileiro, que cobrou explicações em 24h sobre regras de IA e anúncios eleitorais; (3) a aplicação do DSA europeu a operações transfronteiriças como esta, onde o anunciante, o pagador e o público-alvo estão em jurisdições diferentes. Para quem aloca capital em big techs ou atua em compliance digital, a lição é direta: a lacuna entre a política escrita e a execução algorítmica segue sendo o maior passivo oculto do setor.