Economia

Demissões por IA: o plano de emergência que o Congresso debate às pressas

Sessão do Congresso dos EUA com legisladores debatendo projeto de lei sobre proteção ao trabalhador contra demissões por IA
Parlamentares americanos discutem urgência de rede de proteção social diante da automação em massa.

Parlamentares dos EUA correm para reforçar a rede de proteção social antes que a inteligência artificial cause desemprego em massa. A urgência é real, mas o caminho legislativo está minado por divergências sobre quem paga a conta. O que está em jogo vai muito além do seguro-desemprego tradicional.

O projeto que muda as regras do jogo

O senador Ron Wyden, democrata do Oregon, deve apresentar na próxima semana a Lei de Estabilidade e Oportunidade para os Trabalhadores. A proposta ataca duas frentes críticas do sistema atual.

Primeiro, injeta recursos federais extras no seguro-desemprego quando a taxa nacional subir, estendendo o benefício além das atuais 26 semanas. Segundo, cria um adicional de até 26 semanas exclusivo para requalificação de profissionais deslocados pela tecnologia.

Hoje, o auxílio médio cobre menos da metade da renda anterior do trabalhador. O projeto eleva esse piso e amplia o público elegível, corrigindo falhas expostas durante a pandemia e nunca resolvidas.

O impacto direto no caixa das empresas

Para financiar a expansão, Wyden defende tributar gigantes de tecnologia e seus centros de dados. A ideia: quem lucra com a automação deve bancar a transição de quem perde o posto.

Outras propostas na mesa seguem a mesma lógica tributária:

  • Senador Mark Kelly (D-AZ): taxa lucros de big techs para criar fundo federal de benefícios e capacitação.
  • Deputado Greg Casar (D-TX): tributa o setor para financiar infraestrutura geradora de empregos.

Nenhuma das iniciativas tem estimativa de custo oficial ou fonte de receita fechada. Para investidores, a incerteza fiscal sobre o setor de IA nos EUA acaba de ganhar um novo vetor de risco regulatório.

Dados reais versus narrativas de Vale do Silício

Enquanto o Congresso legisla no escuro, o mercado já sente os primeiros tremores. O Goldman Sachs relatou nesta semana “obstáculos à contratação relacionados à IA” em setores sensíveis à automação, resultando em criação de vagas abaixo do esperado.

Martha Gimbel, do Yale Budget Lab, resume o dilema: não há evidência macroeconômica de substituição em massa ainda, mas medir isso em tempo real é “historicamente incomum e difícil”. Na Revolução Industrial, ninguém contava tecelões substituídos mês a mês.

Do lado otimista, a Anthropic projeta crescimento de quase 50% no PIB dos EUA até 2030 graças à IA. O CEO Dario Amodei, porém, alerta: o mesmo crescimento pode virar a vida de milhões de trabalhadores de cabeça para baixo no intervalo.

O entrave bipartidário que ninguém comenta

Existe consenso raro: Hawley (republicano) e Warner (democrata) querem obrigar empresas a reportar demissões ligadas à IA. Warner admite: “em cinco anos a IA criará novas categorias de emprego, mas e no intervalo? Não temos dados de qualidade”.

Mas o projeto parou. A maioria republicana, alinhada a Donald Trump, adota postura de não intervenção. Bret Swanson, da Heritage Foundation, é direto: o partido evita qualquer medida que “chame a atenção para os aspectos negativos” da IA e prejudique os investimentos que sustentam a economia atual.

Assessores de Trump rejeitam a hipótese de demissões em massa. Democratas veem ameaça crescente. O empate travou tudo no Capitólio.

O que observar daqui para frente

Três variáveis definem o cenário para os próximos trimestres: a divulgação de dados oficiais de desligamento por IA (se a lei de transparência avançar), a definição de fontes de financiamento para os fundos propostos e a reação do mercado de trabalho aos “obstáculos de contratação” já mapeados pelo Goldman Sachs.

Enquanto o legislativo patina, a velocidade do Vale do Silício não espera. A janela para preparar a infraestrutura social — e o balanço das empresas — para o choque de transição está aberta agora. Quem monitorar os relatórios de emprego setoriais e os debates da Comissão de Finanças do Senado terá vantagem tática sobre quem espera a crise se materializar nos balanços.