O dólar comercial fechou a sexta-feira (23) cotado a R$ 4,993, rompendo o piso psicológico de R$ 5 pela primeira vez em duas semanas. A moeda brasileira brilhou como a melhor entre os pares globais, mas o alívio cambial esconde um cenário de tensão dupla: a véspera do segundo turno presidencial e uma escalada bélica no Oriente Médio que fez o petróleo saltar 3% em poucas horas.
O choque de realidade nos números do dia
O movimento não foi isolado. Na semana, a divisa acumulou desvalorização de 1,58%, revertendo totalmente a alta de 1,77% registrada nos cinco dias anteriores. Já o Ibovespa subiu 0,47% no pregão, aos 205.082 pontos, embora tenha fechado a semana com leve queda de 0,17%.
O volume financeiro de R$ 30,7 bilhões sinaliza cautela: o investidor ajustou posições, mas evitou apostas grandes antes das urnas. Confira o resumo da performance semanal:
- Dólar à vista: R$ 4,993 (-1,58% na semana);
- Ibovespa: 205.082 pts (-0,17% na semana / +27,28% no ano);
- Petróleo Brent: US$ 116,72 (+6,24% na semana, maior nível desde abril);
- Petróleo WTI: US$ 103,27 (+4,29% na semana).
Por que o real ignorou o dólar forte lá fora?
Enquanto o índice DXY — termômetro do dólar global — subia 0,19% para 101,8 pontos, a moeda brasileira surfou na onda das commodities. A alta do minério de ferro e, principalmente, do petróleo injetou fluxo na B3, beneficiando exportadores e ações de peso como Petrobras e Vale.
Mas há um detalhe técnico crucial: a mínima intradiária de R$ 4,989 acionou stops de venda de dólar travados desde o início de outubro. A liquidação forçada desses contratos amplificou a queda, criando um efeito “venda em pânico” entre quem estava posicionado para alta.
O efeito petróleo: geopolítica bate à porta da inflação
O salto do Brent para US$ 116,72 não é apenas gráfico. O Irã avisou que responderá a eventuais ataques de EUA e Israel mirando bases no Golfo Pérsico. Paralelamente, confrontos entre houthis e Arábia Saudita elevam o prêmio de risco logístico.
Para o Brasil, o cálculo é direto: petróleo caro pressiona combustíveis e freia a desinflação em curso. O Departamento de Energia dos EUA já autorizou uso da reserva estratégica, mas o mercado precifica que a medida é paliativa se houver interrupção real de oferta no Estreito de Ormuz.
Eleição no radar: o que muda na segunda-feira?
O segundo turno entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) é a variável “cisne negro” da próxima semana. Historicamente, o mercado reage mal a incerteza fiscal, mas bem a clareza política. Um resultado definido domingo à noite tende a trazer volatilidade direcional na abertura de segunda — para cima ou para baixo, dependendo da leitura do pacote econômico do vencedor.
O que observar daqui pra frente:
- Reação do câmbio na abertura de segunda (26/10): gap de liquidez pode exagerar o primeiro movimento;
- Discurso do presidente eleito: sinais sobre âncora fiscal e Banco Central ditam o tom dos juros futuros;
- Desdobramentos no Oriente Médio: qualquer interrupção de rota marítima leva o Brent acima de US$ 120 instantaneamente.
O fechamento abaixo de R$ 5 é uma vitória tática do real, mas a guerra cambial da semana que vem será decidida fora do horário comercial — nas urnas e nos campos de petróleo do Golfo.
