Goiânia completou 93 anos com o sexto maior rendimento médio mensal entre as capitais brasileiras: R$ 5.496, superando metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro. Esse número esconde uma revolução silenciosa que tirou a cidade da condição de sede administrativa planejada para 50 mil pessoas e a transformou no terceiro maior mercado imobiliário do país. Como uma capital do Centro-Oeste conseguiu diversificar sua economia a ponto de não depender apenas do agronegócio?
A resposta não está no passado, mas na capacidade de adaptação de setores que souberam ler as novas demandas de uma população que saltou para 1,5 milhão de habitantes. O caminho até aqui passou por decisões estratégicas de infraestrutura, migração de polos comerciais e uma verticalização que redesenhou o skyline da capital.
Do centro histórico à Região da 44: o comércio que migrou
Nos anos 90, o Setor Central era o coração pulsante da cidade. O cartão-postal era o Bosque dos Buritis, e a Avenida Goiás concentrava de livrarias a cursos de datilografia. Com a expansão urbana, o varejo seguiu o morador.
A virada de chave ocorreu com a inauguração do Shopping Flamboyant, em 1981, no Jardim Goiás. O marco iniciou a descentralização impulsionada por quatro vetores: crescimento populacional, expansão imobiliária, mobilidade urbana e a busca por conveniência. Hoje, centros de bairro e grandes shoppings dividem espaço com a Região da 44, segundo maior polo de confecção e moda do Brasil, com mais de 13 mil pontos de venda.
O comerciante José Ronaldo Alves Leite, com loja aberta desde 1988 no Setor Aeroviário, resume a transição: “Antes era lista impressa, telefone fixo e jornal. Hoje é WhatsApp e redes sociais. A internet resolveu a logística, mas a inflação dos anos 80 foi o verdadeiro teste de sobrevivência”.
Supermercados: da mercearia ao atacarejo
O abastecimento alimentar espelha a modernização do consumo. Nas primeiras décadas, mercearias e venda assistida dominavam. O autosserviço só se consolidou nos anos 50. Nos 70, nasceram redes regionais fortes — Marcos, Moreira, Passe Bem — que depois cederam espaço a novos grupos e bandeiras nacionais.
O modelo atual é híbrido. O “atacarejo” chegou tarde a Goiás, mas ganhou força nas últimas décadas, unindo preço de atacado à experiência de varejo. Para Sirlei Antônio do Couto, presidente da Agos, o setor reflete a profissionalização da distribuição e a expansão urbana: “O consumidor pedia ao balconista. Hoje, lida com automação, IA e caixas de autoatendimento”.
Indústria e construção: o motor invisível do PIB
Engana-se quem vê Goiânia apenas como comércio e serviços. A indústria de alimentos é âncora pesada: o maior frigorífico do grupo JBS, líder mundial em proteína animal, opera na região Noroeste. Ao lado, o setor de confecções alimenta a Região da 44, e a produção de máquinas, equipamentos e cosméticos completa o parque fabril.
Mas é a construção civil que materializa a riqueza. Prédios de 20 andares substituíram casas térreas. Edson Roberto Vieira, superintendente do IBGE em Goiás, aponta a origem do capital: “Muitos investidores são proprietários rurais do interior ou de outros estados. A renda do agro financia o boom imobiliário de alto padrão na capital”.
- Anos 30/40: Valorização nos Setores Central e Sul.
- Anos 50/60: Início da verticalização no Oeste e Bueno; êxodo do Centro.
- Anos 80/90: Parques Vaca Brava e Areião consolidam Bueno e Marista.
- Anos 2000/2010: Shopping e Parque Flamboyant elevam Jardim Goiás a bairro nobre.
- Anos 2020: Serrinha, Jardim América e Pedro Ludovico surgem como novos vetores de investimento.
Felipe Melazzo, presidente da Ademi-GO, confirma a simbiose: “O diálogo do mercado imobiliário com o agronegócio é umbilical. O setor responde sozinho por mais de 10% da arrecadação municipal e 20% da força de trabalho industrial”.
Saúde, educação e o salário que surpreende
O setor de serviços é o maior empregador (24% dos ocupados), mas a especialização faz a diferença. Goiânia é referência em saúde de alta complexidade para o Brasil Central, atraindo pacientes de outros estados. Na educação, a fundação da UFG em 1960 criou um ecossistema de formação que retém talentos e abastece o mercado local com mão de obra qualificada.
O resultado prático aparece no bolso: em 14 anos (2012-2026), o rendimento médio dos trabalhadores avançou 35,6%, saindo de R$ 4.053 para os atuais R$ 5.496. O crescimento supera a inflação e sinaliza ganho real de produtividade.
O que observar daqui para frente: a aposta na IA
Todos os especialistas convergem para um único vetor futuro: inteligência artificial. O Centro de Excelência em IA da UFG (Ceia) já figura entre as três maiores instituições de ensino na área no país. Para André Rocha, da Fieg, a tecnologia promete modernizar a indústria local. Adriana Sousa, do Corecon-GO, projeta impacto transversal: gestão de estoques no varejo, diagnósticos na saúde, redução de desperdício no agro e automação no comércio.
O desafio não é tecnológico, mas humano. A diversificação da economia exigirá requalificação em massa. “O objetivo precisa ser aumentar a produtividade gerando empregos de melhor qualidade, fazendo a inovação beneficiar também os pequenos negócios”, finaliza a economista. Para o investidor atento, o sinal está dado: a próxima onda de valor em Goiânia nasce na interseção entre capital do agronegócio, infraestrutura imobiliária e capital humano treinado em dados.
