O resultado das urnas no domingo (25) dispara uma reação em cadeia em Brasília que vai muito além da posse. O centrão inicia, nas horas seguintes, um rearranjo brutal de forças para preservar influência — seja qual for o vencedor.
Essa movimentação define, na prática, quais pautas avançam no Congresso nos dois últimos meses do ano e quem ocupa as vagas mais sensíveis do Judiciário e de tribunais de contas. O impacto direto no orçamento de 2027 já está contratad.
O xadrez do centrão nas primeiras 48 horas
Parlamentares do PP, Republicanos e União Brasil não esperam a diplomação. As articulações para a eleição das mesas diretoras da Câmara e do Senado começam na segunda-feira (26), com Davi Alcolumbre (União-AP) articulando a própria recondução no Senado.
O objetivo declarado: manter o controle da pauta legislativa e limitar o poder do Palácio do Planalto — seja ele ocupado por Lula (PT) ou Flávio Bolsonaro (PL). A diferença está no adversário a ser contido.
- Cenário Lula: foco em frear o PL bolsonarista e garantir governabilidade mínima.
- Cenário Flávio: foco em impedir que o clã Bolsonaro concentre decisões e esvazie o Congresso.
PEC da reeleição e a reforma do Judiciário no radar
Novembro e dezembro reservam votações de alto impacto. A Proposta de Emenda à Constituição que extingue a reeleição para cargos executivos lidera a fila. Governadores como Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) e bancadas do PP já sinalizam apoio, condicionado ao texto final.
Paralelamente, avança a negociação para uma PEC que altera regras de indicação ao STF — com limitação de idade mínima e mandato fixo. O nome de Rodrigo Pacheco (PSD-MG) circula com força para uma das vagas, enquanto Lula indicaria outro ministro para o TCU.
A conta fiscal que explode em 2027
Quem assumir em janeiro herda um cenário fiscal desenhado para estourar no ano seguinte. O atual governo ampliou despesas obrigatórias e benefícios tributários com vencimento de custo concentrado em 2027. Se Lula vencer, enfrenta a pressão por contenção imediata. Se Flávio vencer, terá de conciliar promessas de campanha com a regra fiscal que ele próprio defendeu.
Não há espaço para gradualismo. O primeiro semestre de 2027 exige decisões de corte de gastos ou aumento de receita que nenhum dos dois candidados detalhou na campanha.
Amazônia, Código Florestal e o risco ao acordo UE-Mercosul
Um ponto de inflexão ignorado na reta final da campanha: em discurso no Pará, Flávio Bolsonaro prometeu “regularização fundiária ampla” e revisão de restrições ambientais, sugerindo que o produtor faria “o que quiser com sua terra”.
Na prática, isso exige revogar ou flexibilizar o Código Florestal, que exige 80% de preservação da vegetação nativa na Amazônia Legal. A tentativa legislativa nessa direção acende o alerta diplomático: a União Europeia já condiciona a ratificação do acordo UE-Mercosul a garantias ambientais. Qualquer sinal de retrocesso pode travar o acordo por anos.
O que observar nas próximas semanas
A velocidade das articulações no Congresso ditam o ritmo. Acompanhe três sinais:
- Definição dos relatores da PEC da reeleição e da PEC do STF nas comissões de Constituição e Justiça.
- Posicionamento da bancada do agronegócio sobre o Código Florestal — racha ou alinhamento?
- Primeiros nomes ventilados para Ministério da Fazenda e Banco Central no governo eleito.
O “fantasma do Master” — referência ao escândalo de fraude contábil que respinga em figuras próximas ao poder — não desaparece com a posse. Quem vencer governa sob investigação aberta e pressão por transparência. O custo político disso será cobrado nas votações de 2025.
