Às vésperas do segundo turno, 60% dos brasileiros apostam que a economia vai melhorar. O número é o maior desde outubro de 2022, mas esconde uma fratura exposta: 43% dizem que o país piorou nos últimos meses. A discrepância não é ruído estatístico — é o retrato de um eleitorado que enxerga a realidade através do voto.
O Datafolha ouviu 2.520 pessoas em 154 cidades entre os dias 21 e 22 de outubro. Margem de erro: dois pontos percentuais. O que chama atenção não é apenas o otimismo recorde, mas a velocidade com que ele saltou. Em junho, apenas 36% projetavam melhora para o país. Quase dobrou em quatro meses.
Onde nasce essa confiança — e por que ela não é unânime
A expectativa de melhora atravessa os dois palanques. Entre eleitores de Flávio Bolsonaro (PL), 60% veem o futuro com bons olhos. No eleitorado de Lula (PT), o percentual sobe para 66%. A margem de erro de três pontos nos recortes torna a diferença tecnicamente irrelevante. Os dois lados esperam o mesmo resultado: vitória do seu candidato.
Mas olhe para o retrovisor. A avaliação do passado recente diverge de forma abissal:
- 77% dos eleitores de Bolsonaro dizem que a economia piorou
- 7% dos eleitores de Lula concordam
- Entre evangélicos, a percepção de piora atinge 60%
- Entre católicos, cai para 35%
A escolaridade e a renda também separam os diagnósticos. Quem tem curso superior vê piora em 51% dos casos. Quem ganha mais de cinco salários mínimos, em 54%. No extremo oposto, ensino fundamental e renda de até dois mínimos registram 33% e 35%, respectivamente.
O bolso do eleitor conta outra história
Quando a pergunta sai do abstrato “país” para o concreto “minha vida”, o otimismo salta para 66%. Em junho, era 51%. A expectativa de piora pessoal despencou de 12% para 5%.
Os recortes revelam padrões claros:
- Jovens de 16 a 24 anos: 72% esperam melhora pessoal
- Homens: 69% contra 63% das mulheres
- Eleitores de Lula: 70%; de Bolsonaro: 65%
Mas há um detalhe: 33% dizem que a situação pessoal já melhorou nos últimos meses. Em junho, eram 29%. A parcela que relata piora caiu de 31% para 29%. A inversão é real — ainda que modesta.
O que os economistas veem por trás dos números
“As pessoas não avaliam mais a economia de forma isenta. Cada uma veste os óculos do seu time”, resume Bráulio Borges, diretor da LCA Consultores e pesquisador do FGV Ibre. Para ele, a polarização afetiva contaminou a leitura dos indicadores a ponto de tornar necessária uma nova forma de medir confiança.
Pedro Paulo Zahluth Bastos, professor da Unicamp, aponta outro vetor: “Os dois lados esperam melhora porque os dois candidatos prometem que o dia seguinte será melhor. E cada eleitor acredita que o seu lado vai ganhar.”
Bastos credita parte do salto de otimismo às medidas recentes: reajuste de 15% no Bolsa Família (R$ 22,7 bi em 2027), fim da escala 6×1 aprovado no Senado, novo Desenrola com desconto mínimo de 90% nas dívidas, perdão de débitos de MEIs e ampliação do teto de faturamento da categoria.
Os dados duros que ninguém contesta
Enquanto a percepção oscila, indicadores oficiais desenham um cenário misto:
- Desemprego: 5,3% no trimestre até agosto — menor patamar da série histórica (desde 2012)
- IPCA-15 (outubro): 0,32%, abaixo das projeções de mercado (setembro: 0,7%)
- Endividamento: em alta, citado por críticos como freio à sensação de bem-estar
- Dívida pública: trajetória ascendente pressiona juros futuros
O governo destaca emprego e inflação controlada. A oposição contrapõe com endividamento das famílias e risco fiscal. O eleitor, no meio, filtra o que ouve pelo viés partidário.
O que observar daqui para frente
O empate técnico — 50,47% a 49,53% nos votos válidos — significa que a virada de expectativa pode virar virada de jogo. Se o vencedor conseguir transformar a euforia do “dia seguinte” em entregas concretas, a confiança pessoal (hoje em 66%) pode se consolidar. Se não, o abismo entre “meu bolso melhora” e “o país piora” tende a se alargar.
Três variáveis decidirão quem tem razão nos próximos trimestres: execução fiscal do novo arcabouço, comportamento do crédito para famílias e pequenos negócios, e a capacidade de o governo eleito — seja qual for — manter o desemprego no piso histórico sem explodir a dívida. O otimismo está dado. A fatura vem depois.
