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O segredo da virada: por que 65% dos governantes caíram nas Américas

Mapa das Américas com setas indicando alternância de poder em 65% das eleições recentes
Onda de alternância política varre o continente: 65% dos governantes não se reelegeram desde 2022.

Nas últimas 17 eleições democráticas no continente americano, a regra virou exceção: apenas 35% dos presidentes ou seus sucessores conseguiram se manter no poder. O restante? Uma onda de alternância que varreu do Brasil aos Estados Unidos, passando por Argentina e Chile. O dado expõe uma fragilidade sistêmica que vai muito além de ciclos políticos normais.

O Brasil inaugurou esse ciclo em 2022, quando Jair Bolsonaro se tornou o primeiro presidente a perder a reeleição desde 1998. Desde então, a oposição venceu em 11 das 17 disputas analisadas. Se o recorte for apenas nos países onde a reeleição é permitida, o cenário não melhora: incumbentes caíram em 57% dos casos, incluindo Brasil, Argentina, Estados Unidos e Honduras.

Duas camadas, uma direção perigosa

Para Amâncio Jorge de Oliveira, professor do Instituto de Relações Internacionais da USP, não há um único motor, mas dois movimentos simultâneos. “Um é de mudança, são ventos de mudança, e outros de mudança na direção da direita”, explica. Na América Latina, a guinada conservadora aparece com força, mas o gatilho inicial costuma ser o mesmo: a insatisfação com o status quo.

O especialista aponta uma “encruzilhada” para o Brasil, que tende a seguir o caminho dos vizinhos. A dificuldade está em separar o que é contaminação ideológica do que é simples causalidade eleitoral.

A raiz fiscal por trás do derretimento da popularidade

Olhe para a aprovação dos governantes atuais e o padrão salta aos olhos: Donald Trump (EUA) com 30% de aprovação, Javier Milei (Argentina) com 38%, José Antonio Kast (Chile) e Keiko Fujimori (Peru) na casa dos 30%. Não é coincidência.

Segundo o professor Amâncio, a origem está no “desarranjo fiscal violento” herdado ou criado. “A Argentina talvez seja o caso mais impressionante de déficit fiscal”, exemplifica. A equação perigosa fecha quando o ajuste fiscal chega acompanhado de retirada de direitos trabalhistas. O resultado imediato é uma crise de legitimidade que derruba a sustentação governamental em tempo recorde.

Redes sociais: o acelerador da volatilidade

A tecnologia não apenas reflete a opinião pública; ela a fabrica em velocidade supersônica. O fenômeno tem duas faces:

  • Eleição de “influencers”: Carreiras políticas tradicionais perdem espaço para perfis virais, gerando instabilidade partidária.
  • Derretimento acelerado: A mesma máquina que elege, destrói. A informação — e a desinformação — circula mais rápido do que a capacidade de gestão de crises.

“A opinião de massa era mais volátil do que a de elite. O efeito da internet potencializa esses deslocamentos bruscos”, resume o professor. O Brasil, diz ele, é a “prova disso”.

Radiografia do ciclo: quem saiu, quem ficou

O mapa eleitoral recente desenha um continente em ebulição. Veja o saldo por país:

País / Ano Resultado Detalhe-chave
Brasil 2022 Alternância Lula vence Bolsonaro por 1,8 milhão de votos (50,9% a 49,1%)
Paraguai 2023 Continuidade Santiago Peña (Partido Colorado) mantém hegemonia
Argentina 2023 Alternância Milei vence com 55,7% em meio a inflação de 140%
Panamá 2024 Alternância Mulino vence no 1º turno; governista fica em 6º
Rep. Dominicana 2024 Continuidade Abinader reeleito no 1º turno com 57,4%
México 2024 Continuidade Sheinbaum (Morena) vence com 59,8%; 1ª mulher presidente
EUA 2024 Alternância Trump retorna com 312 votos no Colégio Eleitoral
Uruguai 2024 Alternância Orsi (Frente Ampla) volta ao poder após 5 anos
Equador 2025 Continuidade Noboa reeleito com 55,6% no 2º turno
Canadá 2025 Continuidade Liberais de Carney vencem, mas sem maioria absoluta
Bolívia 2025 Alternância Fim de 20 anos do MAS; Rodrigo Paz vence com 54,5%
Honduras 2025 Alternância Asfura (Partido Nacional) encerra governo Libre
Chile 2025 Alternância Kast (direita) vence com 58% contra coalizão de Boric
Costa Rica 2026 Continuidade Laura Fernández vence no 1º turno com 48%
Peru 2026 Alternância Keiko Fujimori vence na 4ª tentativa; margem de 50 mil votos
Colômbia 2026 Alternância De la Espriella derrota esquerda de Petro por 250 mil votos

O que observar daqui para frente

O cenário desenha um alerta claro para estrategistas e investidores: a estabilidade política na região tornou-se um ativo raro. A combinação de ajuste fiscal duro, comunicação instantânea e ausência de lideranças institucionais fortes cria um “efeito gangorra” — governos eleitos com promessas de ruptura perdem apoio antes de completar o primeiro ano.

Para quem opera no mercado ou gere negócios na região, a variável crítica não é mais apenas “quem ganha”, mas “quanto tempo dura a lua de mel”. Monitorar a velocidade da deterioração fiscal e a capacidade de comunicação direta com bases digitais passou a ser tão relevante quanto analisar o programa de governo. O próximo ciclo eleitoral testará se a exceção — México, República Dominicana, El Salvador — vira regra ou confirma a volatilidade como nova normalidade.