Nas últimas 17 eleições democráticas no continente americano, a regra virou exceção: apenas 35% dos presidentes ou seus sucessores conseguiram se manter no poder. O restante? Uma onda de alternância que varreu do Brasil aos Estados Unidos, passando por Argentina e Chile. O dado expõe uma fragilidade sistêmica que vai muito além de ciclos políticos normais.
O Brasil inaugurou esse ciclo em 2022, quando Jair Bolsonaro se tornou o primeiro presidente a perder a reeleição desde 1998. Desde então, a oposição venceu em 11 das 17 disputas analisadas. Se o recorte for apenas nos países onde a reeleição é permitida, o cenário não melhora: incumbentes caíram em 57% dos casos, incluindo Brasil, Argentina, Estados Unidos e Honduras.
Duas camadas, uma direção perigosa
Para Amâncio Jorge de Oliveira, professor do Instituto de Relações Internacionais da USP, não há um único motor, mas dois movimentos simultâneos. “Um é de mudança, são ventos de mudança, e outros de mudança na direção da direita”, explica. Na América Latina, a guinada conservadora aparece com força, mas o gatilho inicial costuma ser o mesmo: a insatisfação com o status quo.
O especialista aponta uma “encruzilhada” para o Brasil, que tende a seguir o caminho dos vizinhos. A dificuldade está em separar o que é contaminação ideológica do que é simples causalidade eleitoral.
A raiz fiscal por trás do derretimento da popularidade
Olhe para a aprovação dos governantes atuais e o padrão salta aos olhos: Donald Trump (EUA) com 30% de aprovação, Javier Milei (Argentina) com 38%, José Antonio Kast (Chile) e Keiko Fujimori (Peru) na casa dos 30%. Não é coincidência.
Segundo o professor Amâncio, a origem está no “desarranjo fiscal violento” herdado ou criado. “A Argentina talvez seja o caso mais impressionante de déficit fiscal”, exemplifica. A equação perigosa fecha quando o ajuste fiscal chega acompanhado de retirada de direitos trabalhistas. O resultado imediato é uma crise de legitimidade que derruba a sustentação governamental em tempo recorde.
Redes sociais: o acelerador da volatilidade
A tecnologia não apenas reflete a opinião pública; ela a fabrica em velocidade supersônica. O fenômeno tem duas faces:
- Eleição de “influencers”: Carreiras políticas tradicionais perdem espaço para perfis virais, gerando instabilidade partidária.
- Derretimento acelerado: A mesma máquina que elege, destrói. A informação — e a desinformação — circula mais rápido do que a capacidade de gestão de crises.
“A opinião de massa era mais volátil do que a de elite. O efeito da internet potencializa esses deslocamentos bruscos”, resume o professor. O Brasil, diz ele, é a “prova disso”.
Radiografia do ciclo: quem saiu, quem ficou
O mapa eleitoral recente desenha um continente em ebulição. Veja o saldo por país:
| País / Ano | Resultado | Detalhe-chave |
|---|---|---|
| Brasil 2022 | Alternância | Lula vence Bolsonaro por 1,8 milhão de votos (50,9% a 49,1%) |
| Paraguai 2023 | Continuidade | Santiago Peña (Partido Colorado) mantém hegemonia |
| Argentina 2023 | Alternância | Milei vence com 55,7% em meio a inflação de 140% |
| Panamá 2024 | Alternância | Mulino vence no 1º turno; governista fica em 6º |
| Rep. Dominicana 2024 | Continuidade | Abinader reeleito no 1º turno com 57,4% |
| México 2024 | Continuidade | Sheinbaum (Morena) vence com 59,8%; 1ª mulher presidente |
| EUA 2024 | Alternância | Trump retorna com 312 votos no Colégio Eleitoral |
| Uruguai 2024 | Alternância | Orsi (Frente Ampla) volta ao poder após 5 anos |
| Equador 2025 | Continuidade | Noboa reeleito com 55,6% no 2º turno |
| Canadá 2025 | Continuidade | Liberais de Carney vencem, mas sem maioria absoluta |
| Bolívia 2025 | Alternância | Fim de 20 anos do MAS; Rodrigo Paz vence com 54,5% |
| Honduras 2025 | Alternância | Asfura (Partido Nacional) encerra governo Libre |
| Chile 2025 | Alternância | Kast (direita) vence com 58% contra coalizão de Boric |
| Costa Rica 2026 | Continuidade | Laura Fernández vence no 1º turno com 48% |
| Peru 2026 | Alternância | Keiko Fujimori vence na 4ª tentativa; margem de 50 mil votos |
| Colômbia 2026 | Alternância | De la Espriella derrota esquerda de Petro por 250 mil votos |
O que observar daqui para frente
O cenário desenha um alerta claro para estrategistas e investidores: a estabilidade política na região tornou-se um ativo raro. A combinação de ajuste fiscal duro, comunicação instantânea e ausência de lideranças institucionais fortes cria um “efeito gangorra” — governos eleitos com promessas de ruptura perdem apoio antes de completar o primeiro ano.
Para quem opera no mercado ou gere negócios na região, a variável crítica não é mais apenas “quem ganha”, mas “quanto tempo dura a lua de mel”. Monitorar a velocidade da deterioração fiscal e a capacidade de comunicação direta com bases digitais passou a ser tão relevante quanto analisar o programa de governo. O próximo ciclo eleitoral testará se a exceção — México, República Dominicana, El Salvador — vira regra ou confirma a volatilidade como nova normalidade.
