Economia

Split payment: o segredo que ninguém conta sobre o seu caixa em 2027

Gráfico mostra impacto do split payment no fluxo de caixa B2B em 2027
Análise revela que split payment terá efeito quase nulo no caixa da maioria das empresas a partir de 2027.

O split payment da reforma tributária deve ter impacto quase nulo no fluxo de caixa da maioria das empresas a partir de 2027. A razão é simples: os prazos médios de pagamento no B2B já superam o vencimento do imposto hoje. Mas há um detalhe crucial que muda tudo para quem negocia prazos curtos.

Economistas da LCA e ex-consultores do Banco Mundial analisaram os dados reais de mercado. A conclusão desafia o discurso de que a ferramenta vai asfixiar o capital de giro. O efeito real concentra-se em uma minoria de transações — e pode até beneficiar quem compra.

Por que o susto não se sustenta nos números

O mecanismo prevê que o banco recolha o tributo na hora em que o comprador paga o fornecedor. Parece agressivo, mas a realidade dos contratos comerciais conta outra história. Segundo a Coface, o prazo médio de pagamento entre empresas no Brasil beira 66 dias.

O vencimento do novo imposto (CBS e IBS) ocorre no último dia útil do mês seguinte à venda. Ou seja: na grande maioria dos casos, o fornecedor já quitou a guia muito antes de receber o dinheiro do cliente. Quando o pagamento finalmente cai, o sistema apenas confirma: “imposto já pago, nada a fazer”.

Um levantamento do economista Eduardo Fleury com dados de grandes indústrias na CVM mostra prazo médio de 41 dias só no recebimento de fornecedores. No varejo e serviços vendidos a pessoas físicas — fora do split — o prazo passa de 50 dias. A Allianz Trade crava 62 dias na média geral.

Onde o split realmente morde (e onde alivia)

O impacto de caixa negativo aparece apenas em operações B2B à vista ou com prazos curtos (abaixo de 30 a 40 dias). Nesses casos, o vendedor antecipa o imposto sem ter recebido. Só que há um espelho: o comprador antecipa o crédito tributário daquela compra.

  • Vendedor: desembolsa o tributo antes da entrada de caixa.
  • Comprador: ganha o crédito antecipado, melhorando seu próprio fluxo.

Para empresas no meio da cadeia produtiva, os dois efeitos se compensam. Antecipa-se o crédito nas compras e o débito nas vendas. O saldo líquido tende a zero.

O “float” tributário virou mito

O tributarista José Andrés Lopes da Costa (FGV) classifica como “mito” a ideia de que as empresas financiam suas operações com o dinheiro do imposto (o chamado float). Nos números atuais, esse período é curto demais para virar fonte relevante de capital de giro no B2B.

Além disso, a Receita Federal não vai “segurar” o dinheiro. A devolução do crédito ao comprador está desenhada para ser automática e rápida. É dinheiro mudando de bolso — de uma empresa para outra — sem passar pelo Tesouro.

A mudança silenciosa que baixa a alíquota de todos

O split é apenas a engrenagem operacional. A revolução real é a regra que condiciona o crédito do comprador ao pagamento do imposto pelo vendedor. Sem isso, não há split que funcione.

Essa vinculação destrói o incentivo à sonegação em cadeia. Menos fraude significa base de arrecadação maior. Base maior permite alíquotas menores para toda a sociedade. O custo de compliance e fiscalização também cai.

Enfraquecer o mecanismo para preservar o float de poucos pressiona a alíquota para cima. O ganho de caixa de uma minoria vira custo tributário permanente para a maioria.

O que observar daqui para frente

A adoção do split será opcional e restrita a B2B a partir do segundo semestre de 2027. A guia de recolhimento pelo adquirente (alternativa ao split) já estará disponível em janeiro desse ano, no início da cobrança dos novos tributos.

Fique atento a dois movimentos: a definição dos prazos de restituição de crédito pelo Comitê Gestor do IBS e a adesão real das instituições financeiras à infraestrutura tecnológica. Se a promessa de “crédito instantâneo” se confirmar, o argumento de estrangulamento de caixa perde força de vez. Se houver atraso na devolução, o cenário muda — e o caixa sente.