Na última sexta-feira antes do segundo turno, as duas campanhas escancararam estratégias opostas: um lado aposta em ataque jurídico e defesa de benefícios, o outro em estrelas da música e uma promessa bilionária de renúncia fiscal. O que está em jogo não é só o voto — é o desenho da economia nos primeiros meses de governo.
O horário eleitoral gratuito acabou às 23h59 de 23 de outubro. O debate final na Globo ocorreu horas depois. No domingo, 25 de outubro, 156 milhões de eleitores decidiram. Mas os sinais dados nesses últimos dias ainda reverberam nas projeções de mercado.
O lado de lá: Janones, Ana Clara e a blindagem do Bolsa Família
A campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) colocou o deputado André Janones (Rede-MG) no centro do último programa. A escolha não foi aleatória: Janones domina a linguagem de internet e fala diretamente com o eleitor de renda baixa que recebe transferências federais.
O roteiro girou em torno de dois eixos. Primeiro, a defesa intransigente dos programas sociais — apresentados como “proteção real” contra a fome. Segundo, a exposição do caso Ana Clara, menina de cinco anos morta por tiro de fuzil 7,62 mm em ação da PM de Niterói (RJ), em fevereiro de 2021. O policial Bruno Dias Delaroli foi defendido à época por Flávio Bolsonaro.
A narrativa tenta colar no adversário a imagem de quem protege abusos de Estado e ameaça benefícios. Não há menção a propostas econômicas estruturais no bloco.
O lado de cá: Gusttavo Lima, Marrone, Rodolffo e a conta do Perse
Flávio Bolsonaro (PL) foi na direção oposta. Escalou três nomes do sertanejo universitário — Gusttavo Lima, Marrone (dupla com Bruno) e Rodolffo (dupla com Israel) — para falar de endividamento das famílias e cobrar a volta do Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos (Perse).
O Perse foi criado em 2021, durante a pandemia, e extinto em 2025 após atingir o teto de renúncias fiscais: R$ 15 bilhões em benefícios tributários para hotéis, casas de show, buffets e afins. A promessa de reativação mira um setor que emprega milhões informalmente e tem alta capilaridade no interior.
O discurso evita detalhar de onde viria o dinheiro para bancar a renovação. O foco é a dor do orçamento doméstico — juros altos, inflação de alimentos, cartão de crédito rotativo.
Duas leituras do mesmo eleitor
As estratégias revelam como cada campanha enxerga o voto decisivo. Dados internais (não públicos) sugerem que 12% a 15% do eleitorado ainda oscilava na véspera do debate. São pessoas que:
- Recebem Auxílio Brasil/Bolsa Família, mas sentem o aperto no supermercado
- Trabalham em serviços, comércio ou eventos informais
- Não se identificam com pautas ideológicas, apenas com sobrevivência financeira
Para esse grupo, a promessa de R$ 15 bilhões no Perse soa concreta. A defesa do Bolsa Família, idem. O debate final serviu para cada lado tentar puxar a corda para o seu lado sem romper.
O que o mercado deve monitorar a partir de segunda
Independente do vencedor, três variáveis definem a abertura dos negócios na semana seguinte:
- Composição da equipe econômica: nomes para Fazenda e Planejamento sinalizam se haverá espaço para responsabilidade fiscal ou expansão de gastos
- Destino do Perse e programas similares: a conta de R$ 15 bi precisa de fonte — corte de despesa, nova receita ou dívida
- Reação do Congresso: a base de apoio real (não a declarada) determinará a velocidade de reformas tributária e administrativa
O horário eleitoral acabou. O debate acabou. A urna confirmou um nome. Mas a negociação real — aquela que move contratos, câmbio e juros — começa agora. Quem leu até aqui sabe: o espetáculo foi na TV. O contrato é no Diário Oficial.
