Economia

Lucro do Bradesco sobe pela 11ª vez, mas ‘fantasma’ da inadimplência ronda 2027

Sede do Bradesco com gráfico de lucro crescente e indicador de inadimplência em alta
Bradesco registra 11ª alta consecutiva de lucro, mas inadimplência preocupa analistas para 2027

O Bradesco encerrou o terceiro trimestre de 2026 com lucro recorrente de R$ 7,1 bilhões, marcando a décima primeira alta consecutiva no resultado. Apesar do número histórico, as ações fecharam perto da estabilidade após caírem mais de 2% durante o pregão, sinalizando que o mercado mira mais a qualidade do lucro do que sua magnitude.

A composição do balanço acendeu alertas vermelhos nas principais casas de análise: a inadimplência acelerou, a cobertura de provisões encolheu e a margem financeira ajustada ao risco comprimiu. O cenário divide opiniões sobre a capacidade do banco de sustentar o ritmo de expansão no ano que vem.

O que os números mostram — e o que eles escondem

O lucro subiu 15% na comparação anual e 0,8% frente ao trimestre anterior, ritmo mais fraco da sequência atual. O retorno sobre o patrimônio (ROE) ficou em 15,6%, ou 16,1% se descontado o aumento de capital de R$ 10 bilhões realizado no período. A direção manteve o guidance para 2026, mas analistas já revisam modelos para 2027.

Três pilares sustentaram o resultado nominal:

  • Controle de custos: Despesas operacionais abaixo do esperado levaram o índice de eficiência gerencial a 45,4%, um dos melhores patamares recentes.
  • Transformação digital: Fechamento de agências e migração para canais digitais seguem reduzindo a base de custos fixos.
  • Receita de seguros enfraquecida: O segmento caiu cerca de 9% no trimestre, pressionado por sinistralidade alta em saúde e vida e menor resultado financeiro.

Qualidade dos ativos: o ponto nevrálgico

A inadimplência acima de 90 dias (NPL) saltou para 4,6%, alta de 30 pontos-base em três meses. A deterioração concentrou-se em duas frentes sensíveis: pequenas e médias empresas (com peso relevante de linhas garantidas pelo governo) e pessoas físicas, notadamente crédito rural.

O índice de cobertura — relação entre provisões e carteira vencida — recuou de 152% para 143%. Na prática, o banco está provisionando menos em relação ao estoque de calotes, o que eleva o custo de risco e reduz a margem de segurança contra choques adicionais.

A margem financeira ajustada ao risco caiu de 4,5% para 4,2%, evidenciando que o custo do crédito está consumindo parcela crescente da receita gerada pelos empréstimos.

Visão das casas: de ‘comprar na queda’ a ‘neutro cauteloso’

O consenso é de trimestre misto, mas a divergência aparece na projeção para 2027. A tabela abaixo resume o posicionamento das principais instituições:

Instituição Recomendação Tese Central
Itaú BBA Outperform (Alvo R$ 22) Múltiplos descontados e reestruturação em curso; risco de revisão para baixo no lucro 2027 se crédito piorar.
JPMorgan Overweight (ADRs) Principais beneficiário de juros menores e atividade mais forte em 2027; problemas atuais devem perder força.
Morgan Stanley Overweight (ADRs) Trimestre decepcionante, mas setup macro favorável pode reverter margens e qualidade de ativos no próximo ano.
XP / Goldman Sachs Neutro Custos de crédito limitam expansão da rentabilidade; formação de NPL supera provisionamento.
Genial Investimentos Não divulgada Avanços operacionais claros, mas ciclo de crédito mais desafiador; cobertura menor reduz folga para absorver choques.

O que observar daqui para frente

O divisor de águas para a tese de investimento no Bradesco nos próximos trimestres não é o lucro reportado, mas a trajetória da inadimplência inicial e a capacidade de recompor a cobertura sem sacrificar a margem. Se o ciclo de corte de juros se confirmar no primeiro semestre de 2027, a tendência natural é de alívio no custo de risco e recuperação da demanda por crédito — cenário que beneficiaria o banco justamente pela exposição ao varejo e PMEs.

Por outro lado, a dependência de linhas garantidas pelo governo no segmento de pequenas empresas introduz uma variável de política pública difícil de modelar. Investidores devem monitorar a evolução do NPL 15-90 dias (inadimplência inicial) nos próximos dois balanços: uma estabilização nesse indicador seria o sinal mais forte de que o pico de provisões ficou para trás.