Justiça

Calote em festas: buffets cancelam na hora e deixam 50 famílias no prejuízo

Fachada do buffet Casa do Vovô em Sorocaba com placa de fechado e pais preocupados
Buffet Casa do Vovô em Sorocaba acusado de cancelar festas infantis e não devolver dinheiro.

Dois buffets infantis com a mesma administração em Sorocaba e Votorantim (SP) são acusados de cancelar festas em cima da hora e reter valores pagos antecipadamente. Um grupo de vítimas no WhatsApp já reúne mais de 50 pessoas. A promessa de reembolso parcelado não tem sido cumprida.

O golpe do cancelamento de última hora

A empresária Solange Nazaro Cassar Arruda contratou o “Casa do Vovô”, em Sorocaba, para o aniversário de dois anos do filho, marcado para 10 de outubro de 2026. O investimento girou em torno de R$ 5 mil. Uma hora antes do evento, uma mensagem informava o cancelamento: a alegação era de roubo de fiação e equipamentos, deixando o salão sem energia.

Solange precisou avisar convidados às pressas; alguns chegaram ao local e encontraram as portas fechadas. Dias depois, o buffet propôs devolver o valor em seis parcelas, oferta recusada pela cliente. Grávida de oito meses, ela relata prejuízo financeiro e abalo emocional, tendo que improvisar outra comemoração no dia seguinte.

Escola no prejuízo: formatura de 300 crianças em risco

O impacto extrapola festas particulares. A professora Ariane Mendes organizava a formatura de cerca de 300 alunos do Pré II no Centro de Educação Infantil “Zilda Pereira Aguilera”. O contrato, renovado pelo terceiro ano, somava R$ 7 mil — recursos arrecadados entre pais, APM e professores.

Há cerca de um mês, a equipe descobriu que o estabelecimento havia fechado as portas. A documentação exigida pela prefeitura não foi entregue e o contato com a administração foi perdido. O evento, planejado para encerrar uma etapa importante das crianças, corre risco de não acontecer.

Festa realizada, mas serviço não entregue

Nem todas as queixas envolvem cancelamento. A professora Daisy de Oliveira Luz realizou a festa da filha no dia 26 de setembro de 2026 no “Casa do Vovô”, mas descreve a experiência como “horrível”. O custo foi de R$ 3,5 mil para 55 pessoas.

  • Atraso: comida servida 1h30 após a chegada dos convidados.
  • Cardápio alterado: salgados contratados substituídos por opções encharcadas em óleo; docinhos ausentes.
  • Estrutura precária: brinquedos quebrados, banheiro sujo, molhado e com vazamento.
  • Improviso: crepes, churros queimados e macarrão passado servidos como substitutos.

Após reclamação nas redes sociais, Daisy firmou acordo de reembolso condicionado à remoção do post. O novo contrato reconhecia a falha, mas a primeira parcela não foi paga na data combinada.

Segunda unidade em Votorantim repete o roteiro

O padrão se repete no “Toca do Vovô”, no Parque Bela Vista, em Votorantim. Uma contratante, que preferiu não se identificar, teve a festa de 11 anos do primo cancelada em 19 de outubro de 2026 — uma hora e meia antes do horário marcado. A justificativa: problemas estruturais no salão.

O valor de quase R$ 3,5 mil seria devolvido em seis parcelas, segundo mensagem da empresa: “Considerando o elevado número de contratos afetados simultaneamente e o impacto financeiro decorrente da interrupção das atividades, a empresa não dispõe, neste momento, de recursos suficientes para realizar todas as devoluções em pagamento único”. Após o aviso, a administradora parou de responder às cobranças.

Silêncio da administração e próximos passos

O g1 tentou contato com a administradora dos dois empreendimentos, mas não obteve retorno até o fechamento da apuração. Diante do cenário, especialistas em direito do consumidor orientam as vítimas a registrar boletim de ocorrência, acionar o Procon e, se necessário, ingressar com ação judicial por danos materiais e morais. A concentração de queixas idênticas em duas unidades da mesma gestão reforça a tese de prática comercial abusiva.

O que observar daqui para frente

Contratantes com eventos futuros agendados nesses endereços devem exigir comprovação de regularidade do estabelecimento (alvará, vistoria do Corpo de Bombeiros) e evitar pagamentos integrais antecipados sem garantias contratuais claras. Acompanhar canais oficiais de defesa do consumidor na região é essencial para saber se haverá ação coletiva ou interdição dos locais.