Economia

Dólar abaixo de R$ 5: a virada que pegou todo mundo de surpresa

O dólar comercial fechou a sexta-feira (23) cotado a R$ 4,993, rompendo o piso de R$ 5 pela primeira vez desde 9 de outubro. A moeda brasileira brilhou como a melhor entre os pares globais, mesmo com o índice DXY subindo 0,19% no exterior.

Essa desconexão entre o câmbio local e a força internacional da divisa americana esconde um choque de forças que vai muito além da disputa eleitoral de domingo. O que acontece no Oriente Médio está ditando o ritmo dos ativos de risco por aqui.

O placar da semana em números

Os dados consolidados mostram uma dinâmica clara de alívio no câmbio e tensão nas commodities:

  • Dólar à vista: R$ 4,993 (-0,92% no dia; -1,58% na semana);
  • Ibovespa: 205.082,56 pontos (+0,47% no dia; -0,17% na semana);
  • Petróleo Brent: US$ 116,72 (+3,13% no dia; +6,24% na semana);
  • Petróleo WTI: US$ 103,27 (+3,82% no dia; +4,29% na semana).

Por que o real ignorou o dólar forte lá fora

Enquanto o DXY avançava para 101,799 pontos, a moeda brasileira registrou a maior valorização semanal entre as principais divisas emergentes. O movimento não foi aleatório: investidores desfizeram posições de proteção (hedge) montadas nas semanas anteriores.

Com a aproximação do segundo turno entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), muitos agentes já precificavam cenários adversos. A ausência de ruídos novos nas pesquisas de intenção de voto abriu espaço para a realização de lucros em operações vendidas em real.

O efeito petróleo: o motor oculto da Bolsa

Mas o câmbio não agiu sozinho. O salto de mais de 3% no barril do Brent — maior patamar desde abril — injetou fôlego extra no Ibovespa. Ações de petroleiras e mineradoras puxaram a alta de 0,47% no pregão, compensando a cautela setorial.

A escalada geopolítica é o combustível. O Irã ameaçou retaliar eventuais ataques de EUA e Israel contra bases no Golfo Pérsico, enquanto confrontos entre houthis e Arábia Saudita elevam o prêmio de risco de fornecimento. O Departamento de Energia americano já acionou a Reserva Estratégica para conter a volatilidade.

O que separa o câmbio da Bolsa agora

Há uma divergência tática importante. No acumulado de outubro, a Bolsa ainda sobe 10,06% e, no ano, 27,28%. O volume de R$ 30,7 bilhões na sessão indica liquidez, mas a queda semanal de 0,17% no Ibovespa revela que o investidor institucional segue seletivo.

O dólar cai por fluxo de curto prazo e ajuste técnico. A Bolsa sobe por setores específicos (energia/materiais básicos), não por apetite amplo por risco Brasil. Essa assimetria tende a persistir até a definição do cenário fiscal pós-eleição.

O que observar na segunda-feira (26)

Três variáveis vão ditar a abertura da semana: o resultado das urnas, a reação do petróleo a eventuais desdobramentos no Oriente Médio e o comunicado do Banco Central sobre a taxa Selic, previsto para quarta-feira. Se o Brent sustentar os US$ 116, o real ganha um aliado de peso — mas a inflação importada vira a nova dor de cabeça para o Copom.