Economia

O abismo entre o PIB e a mesa: por que a ‘recuperação’ não chega a você

Gráfico de PIB crescente contrasta com família diante de preços altos no mercado, simbolizando abismo entre macroeconomia e realidade
Indicadores positivos mascaram a erosão do poder de compra que afunda a classe média nas economias emergentes.

As planilhas mostram inflação domada, superávit fiscal e investidores estrangeiros retornando. Nas ruas de Buenos Aires, Casablanca e Colombo, a realidade é outra: o custo de vida explode e a classe média evapora. Esse descompasso entre o sucesso macroeconômico e a sobrevivência diária está criando uma bomba-relógio política nas principais economias emergentes.

O choque de realidade na ponta do lápis

Gustavo Perez votou em Javier Milei acreditando na promessa de ordem. Hoje, vê seus custos de reposição triplicarem enquanto a clientela some. A inflação argentina caiu de 300% para 33% no papel, mas o poder de compra do comerciante derreteu. “Havia uma classe média há três anos. Ela não existe mais”, resume.

O padrão se repete do Sri Lanka à Nigéria. Reformas ortodoxas — corte de subsídios, flutuação cambial, juros altos — estabilizaram as contas públicas e atraíram capital. O crescimento médio desses países roda agora perto de 4%, o dobro das economias ricas. O problema é quem paga a conta.

O risco que os modelos não precificam

Para o investidor, o sinal de alerta vem da Verisk Maplecroft: o risco médio global de agitação social atingiu o pico de quase uma década. Torbjorn Soltvedt, analista da casa, é direto: quando alimentos e combustíveis disparam, a reação é imediata e violenta.

Na Nigéria, o ministro das Finanças avisou que ignorar a desigualdade equivale a “sentar-se sobre pólvora”. No Marrocos, o banco central admite: o desemprego persistente alargou o abismo entre o PIB oficial e a percepção do cidadão. Estabilidade macro sem inclusão social é instabilidade política adiada.

A armadilha do “não havia alternativa”

Simon Quijano-Evans, da Macro Hive, resume o dilema dos governantes: “Não tinham absolutamente nenhuma outra escolha”. Sem o ajuste, o abismo seria a fuga de capitais e o calote. O FMI e o mercado cobram a fatura; a população cobra a sobrevivência.

O resultado é um mundo de duas velocidades. Em Casablanca, torres de escritórios e estádios brotam financiado por Investimento Externo Direto (IED) que quase dobrou em 2023. A poucos quilômetros, jovens protestam e tentam cruzar a fronteira para a Europa. O engenheiro Anass Sayad define: “Marrocos se desenvolve em duas velocidades diferentes”.

O desafio demográfico que ninguém resolve

O Banco Mundial projeta 1,2 bilhão de pessoas entrando na idade ativa nos países em desenvolvimento na próxima década. A pergunta incômoda: o atual modelo de crescimento intensivo em capital, mas poupador de mão de obra, conseguirá absorvê-las?

  • Peso da comida no orçamento: 30% a 50% da cesta de consumo nos emergentes vs. 13% a 14% nos EUA.
  • Capacidade de amortecimento: Países ricos têm espaço fiscal para subsidiar a transição; emergentes, não.
  • Contágio rico: Protestos por custo de vida já pipocam na França, Itália e Espanha.

O rosto invisível da “saída da crise”

Em Colombo, Sirimodara Sriyakanthi acorda antes das 5h para cozinhar marmitas que vende a US$ 2. Absorve a alta dos insumos para não perder o cliente. O Sri Lanka saiu do default técnico, mas para ela, a crise nunca acabou. “Temos tantas despesas”, diz, calculando a mensalidade do filho e a aula de dança da filha.

O que observar daqui para frente

A sustentabilidade das reformas depende de uma corrida contra o tempo: gerar empregos formais e renda real antes que a pressão social force uma guinada populista que afugente o capital recém-chegado. Para quem aloca recursos, o monitoramento de indicadores de desigualdade, desemprego jovem e protestos de rua deixou de ser “ESG opcional” e virou variável de risco de crédito soberano. O próximo choque não virá do balanço de pagamentos, mas da esquina.