A propaganda eleitoral gratuita no rádio e na TV terminou nesta sexta-feira (23), deixando o segundo turno definido para domingo (25) com duas narrativas opostas sobre o futuro da economia. O que não foi dito abertamente nos programas pode pesar mais no seu bolso do que os discursos ensaiados.
De um lado, a defesa da continuidade com promessa de expansão de benefícios. Do outro, a bandeira da mudança atrelada a um corte orçamentário de R$ 250 bilhões sem detalhamento público. O eleitor — e o investidor — fica no escuro sobre onde a tesoura vai cair.
O recado direto para quem decide o orçamento
A peça do PT retomou a tese de que o ajuste proposto pelo adversário atingiria folha de pagamento, aposentadorias, Farmácia Popular e Bolsa Família. A campanha não apresentou estudo técnico que comprove a conta, mas o sinal ao mercado é claro: há risco de desindexação de despesas obrigatórias se o discurso de “corte linear” virar medida provisória.
Já a propaganda do PL evitou nominar o presidente e focou no sentimento de exaustão. O senador Flávio Bolsonaro associou sua candidatura a “segurança das famílias” e “possibilidade de melhorar de vida”, sem detalhar como o ajuste fiscal coexistiria com a manutenção do poder de compra das classes C e D.
Três pontos que o horário eleitoral omitiu
- Origem dos R$ 250 bi: Não há plano público setorial — se virá de subsídios, isenções, pessoal ou investimento.
- Regra de ouro do teto: Nenhuma das campanhas explicou como conciliar promessas de gasto com o arcabouço fiscal vigente.
- Petrobras e combustíveis: A privatização da estatal foi citada como risco de alta no preço da gasolina, mas sem simulação de paridade de importação (PPI) para 2023.
O efeito nos ativos de risco
Analistas de mercado monitoram dois vetores imediatos pós-urna: a composição da base parlamentar que sair das urnas e o primeiro sinal do vencedor sobre a equipe econômica. A volatilidade do real e da curva de juros futuros nas próximas 48 horas deve responder mais a esses sinais do que aos discursos de encerramento.
Historicamente, o dia seguinte à eleição presidencial no Brasil gera movimento médio de 1,5% a 2% no dólar futuro e de 20 a 30 pontos-base nos DIs longos. A amplitude depende da percepção de governabilidade no Congresso.
O que observar a partir de segunda-feira
Três variáveis definirão a precificação de risco nas semanas seguintes: anúncio do ministro da Fazenda, sinalização sobre a regra fiscal substituta ao teto de gastos e velocidade de articulação da base no Congresso. Quem leu até aqui sabe: o jogo real começa depois que as urnas são lacradas.
Mantenha o radar ligado na composição das comissões mistas de orçamento e nas primeiras medidas provisórias. É ali que o discurso vira número — e o número vira resultado no balanço.
