A Casas Bahia acaba de colocar no comando das negociações de sua recuperação judicial uma executiva com currículo de “apaga-incêndio” corporativo. Camille Faria, ex-CFO da Oi e da Americanas, assume o posto deixado por Mateus Tessler dois dias após a Justiça aceitar o processo da varejista. O que a experiência dela em duas das maiores reestruturações recentes do país sinaliza para os credores de uma dívida de R$ 17,3 bilhões?
A jogada estratégica por trás da troca
O anúncio ocorreu na sexta-feira (23), logo após a 1ª Vara de Falências de São Paulo deferir o pedido do grupo. A juíza Taina Maria Leonardo De Oliveira reconheceu os requisitos legais, mas impôs uma condição: a apresentação de documentos complementares em 30 dias. É nessa janela apertada que Faria entra, atuando em parceria com a diretoria interna e a consultoria Alvarez & Marsal.
A varejista fez questão de frisar que a transição não altera a estratégia de reestruturação. O comunicado destaca o alinhamento do Conselho de Administração e da Mapa Capital, acionista controladora. Mas, no mercado, a leitura é outra: a escolha mira uma execução mais técnica e agressiva na mesa de negociação.
O currículo de quem já navegou em tempestades maiores
Engenheira química pela PUC-Rio, Camille Faria não é novata em salas de credores hostis. Seu histórico inclui passagens por bancos de investimento — Morgan Stanley e Bradesco BBI — e por gigantes de telefonia como Tim e Embratel. O diferencial, porém, está nos dois últimos capítulos executivos:
- Oi: Como CFO, participou da reestruturação de dívida superior a R$ 60 bilhões, uma das mais complexas da América Latina.
- Americanas: Foi CFO e diretora de Relações com Investidores durante o processo que se seguiu ao rombo contábil de 2023.
Após deixar a Americanas em setembro deste ano, fundou a Althia Partners, boutique focada exclusivamente em reestruturação operacional e financeira. A contratação traz, portanto, não apenas a executiva, mas a metodologia de uma consultoria recém-criada para esse fim.
O que a Justiça exigiu e o prazo que corre
A decisão judicial trouxe um alívio imediato — a suspensão de execuções e a proteção do ativo —, mas acendeu um alerta. A magistrada apontou pendências documentais que precisam ser sanadas até o final de dezembro. Esse é o primeiro teste de fogo da nova líder: organizar a papelada de um conglomerado de dez empresas sob o mesmo guarda-chuva processual.
Estão na lista as marcas Casas Bahia e Ponto Frio, o e-commerce Extra.com, a fabricante de móveis Bartira, além de subsidiárias de logística e tecnologia. A complexidade não está apenas no volume de CNPJs, mas na interdependência operacional entre eles.
Os números que moldam o tabuleiro
Para dimensionar o desafio, vale revisitar a estrutura da dívida declarada no pedido de 17 de agosto:
- Passivo total: R$ 17,3 bilhões.
- Credores: Bancos, fornecedores, debenturistas e trabalhadores.
- Prejuízo no 2T24: R$ 10 bilhões, reflexo de baixas contábeis e provisões.
O plano de recuperação ainda não foi apresentado. A expectativa é que Faria utilize o conhecimento prévio com a Alvarez & Marsal — consultoria que já assessorava o grupo — para acelerar a elaboração de uma proposta que equilibre alongamento de prazos, haircut (deságio) e preservação da operação.
O que observar nas próximas semanas
Três movimentos definirão se a troca de comando surtiu efeito prático. Primeiro, a entrega dos documentos complementares dentro dos 30 dias estipulados pela juíza. Segundo, a convocação da Assembleia Geral de Credores, momento em que a negociação política se sobrepõe à técnica. Terceiro, a capacidade da nova gestão de manter o fluxo de caixa operacional — estoques, logística e pagamentos a fornecedores críticos — enquanto o processo corre.
Para investidores e parceiros comerciais, o sinal a monitorar é a adesão dos grandes bancos credores às primeiras conversas informais. A entrada de Faria sugere que a empresa quer fechar um “pre-packaged” (plano pré-acordado) antes da assembleia formal. Se conseguir, encurta em meses o caminho para a saída do Capítulo 11 brasileiro. Se não, o desgaste de caixa pode forçar vendas de ativos a preços de liquidação.
