Economia

Frango mais barato no Sul? O segredo por trás do surto em Santa Catarina…

Frango congelado em supermercado com etiqueta de preço baixo, representando queda no atacado por embargo exportação Santa Catarina
Embargo às exportações de Santa Catarina derruba preço do frango no atacado, mas alívio ao consumidor é incerto

Um foco de Doença de Newcastle em Santa Catarina derrubou as portas de exportação para gigantes como China e Arábia Saudita, criando um cenário raro: excesso de oferta no mercado interno. O Itaú BBA projeta queda de preços no atacado, mas o consumidor final pode não sentir o alívio no bolso.

Tudo depende de quanto tempo os embarques ficarão parados e de como o varejo vai reagir ao excedente de carne. A resposta curta? O atacado do Sul já sente a pressão. A longa exige entender a engrenagem entre safra recorde, sazonalidade e logística.

O golpe cirúrgico nas exportações catarinenses

Santa Catarina não é apenas mais um estado produtor: sozinha, ela envia para fora do país 63% de tudo o que produz. A média nacional mal passa dos 37%. Quando China, Arábia Saudita, Chile e México anunciaram a suspensão das compras nesta semana, o efeito foi imediato — frigoríficos catarinenses ficaram com um volume enorme de produto sem destino certo.

Sem alternativa, a carne migra para o mercado doméstico. A Região Sul, pela proximidade logística, torna-se o destino natural desse excedente. Na prática, significa mais frango disputando o mesmo espaço nas câmaras frias dos atacadistas.

Por que o atacado sente primeiro (e o varejo pode ignorar)

O relatório do Itaú BBA aponta três pressões simultâneas sobre a indústria:

  • Estoque inchado: produto que não embarca ocupa espaço e capital.
  • Custo de armazenagem: cada dia a mais na câmara fria corrói a margem.
  • Fluxo de caixa: receita em dólar travada, despesas em real correndo.

Para girar o estoque, a tendência é reduzir o preço de venda no atacado. Mas o caminho até a gôndola do supermercado tem pedágios: transporte, processamento, embalagem e a própria margem do varejista. Não há obrigação legal de repasse — e o histórico mostra que o varejo costuma absorver parte do desconto.

A tempestade perfeita prevista para o primeiro trimestre

O timing agrava o quadro. A produção nacional vem em ritmo forte: abates cresceram 3,7% e o volume de carne, 6,2% nos nove primeiros meses do ano, na comparação anual. Até aqui, as exportações robustas drenavam esse excesso.

Com as portas fechadas em SC, a oferta interna salta justamente quando a demanda costuma desabar. Após as festas, o 13º salário some, impostos (IPVA, IPTU) e gastos escolares apertam o orçamento. Mais frango disponível + menos dinheiro no bolso = pressão bajista no atacado.

O banco projeta que o pico de impacto ocorra entre janeiro e março de 2027, concentrado no Sul e no canal atacadista.

O que a história recente ensina sobre a duração do bloqueio

Dois precedentes recentes calibram as expectativas:

  • 2024 (Rio Grande do Sul): foco de Newcastle → restrição de um mês → preços estáveis.
  • 2025 (Gripe Aviária): bloqueios amplos por quatro meses → preços cederam com força.

A avaliação do Itaú BBA é que o episódio atual ficará no meio do caminho: impacto relevante, porém restrito a Santa Catarina e ao atacado sulista. A variável decisiva é a velocidade da reabertura dos mercados compradores.

O radar para as próximas semanas

Três sinais ditam o desfecho prático para quem opera na ponta — seja na indústria, no varejo ou na gestão de custos de alimentação:

  • Prazo de reabilitação: negociações sanitárias costumam levar de 30 a 120 dias; cada semana conta.
  • Comportamento do varejo: monitorar se redes passam a anunciar promoções agressivas de cortes de frango.
  • Preços do milho e farelo de soja: custo de produção ainda dita o piso, independentemente do surto.

Enquanto os certificados sanitários não voltam à mesa, a equação é simples: frigoríficos catarinenses precisam vender, e o Sul do Brasil é o comprador mais acessível. Quem compra no atacado já tem argumento para negociar. Quem compra no varejo, por ora, só observa.